Sim, eu fui um fã de primeira hora do Arcade Fire, porque não acreditava mais que o rock pudesse falar coisas verdadeiras pra gente, sabe? E continuei não acreditando nas primeiras audições de “Funeral” e do EP de estréia, porque na época não existia nada assim, e eu não vislumbrava uma tal combinação de melancolia com raiva, atordoamento com lucidez, luto com tesão pela vida.
Em setembro de 2005 eu escrevi um mini-post chamando Win Butler e seus companheiros de “faroleiros de Dionísio”. Porque a gente estava no meio de um funeral e só tinha vontade de dançar! E porque não dá pra acreditar num Deus que não saiba, etc — vocês sabem. “Uns loucos”, dizia eu. Porque havia tanto grito e exasperação que tudo poderia soar como um ruído gigantesco (“an ocean of noise”), algo sem sentido para quem não soubesse onde o caminho deles ia. E era difícil de seguir, viu? “No cars go”. Ou você tem um mapa bem detalhado ou, ao contrário, rasgou todos os mapas e deixou-se perder — pra depois se achar.
Por isso é que o terceiro disco me deu um certo enjôo. Não havia mais aquele grito todo. Era como sair de um culto gospel de negão americano pra uma daquelas lentas e tristes missas católicas. A chama ardia, mas em fogo baixo. Se Butler não queria nunca mais morar em seu país natal, a América (“Windowsill”), poderia nos ter poupado de uma radiografia do país. Mas não, “The Suburbs” é basicamente um enfileirar de polaróides da Nova América Profunda, porque aquela outra ficou em algum filme das antigas. E, ao que parece, a América de hoje gostou de ser visitada dessa forma, porque deu ao Arcade Fire o número um de vendas da Billboard.
Bem, este post é apenas porque acho que fiz as pazes com eles, a partir deste vídeo:
É um vídeo totalmente diferente dos antigos — que eram um flanar de idéias múltiplas e subjetivas; um jogo de colorir, ou de búzios, ou um caleidoscópio.
Este vídeo fala direto, olhando no olho. Tem uma mensagem. Quer ser ouvido. Não quer ficar inacessível a espectadores desatentos. A mensagem não é óbvia ou definitiva, mas está lá.
O salto que o Arcade Fire está dando agora é semelhante ao que o R.E.M. deu há vinte anos atrás. Quando o mundo inteiro está ouvindo o que você tem a dizer, é natural que você TENHA algo a dizer, e que prefira ser entendido. Você tenta, então, ser racional.
Talvez essa ordem e racionalidade desaponte alguns dos adictos pelas altas doses de som e fúria da obra anterior — e eu sou um deles, sim. Mas é difícil pedir a uma banda para NÃO amadurecer.
Nem tenho parâmetros atuais para julgar; quase todas as bandas dos anos 00 apodreceram antes de amadurecer.
Eu só espero, e espero muito mesmo, que essa maturidade não vire sinônimo de chatice.
Porque, isso, não dá pra perdoar.







