Sem a música, a vida seria um erro

A frase é de Nietzsche (aforismo 33 do Crepúsculo dos Ídolos). Eu tava refletindo sobre como um amor exagerado pela música me persegue há muito tempo, e na sua trajetória.

Quando eu era criança, nos anos 70, o Brasil estava vivendo talvez a sua era de ouro musical. As gravadoras chamavam os melhores artistas e davam-lhes liberdade para criar, e suas criações conseguiam grande sucesso de público.

Hoje é difícil acreditar que um disco difícil e reflexivo de Belchior (“Alucinação”) tenha vendido 500 mil cópias, mas sim, era esse o star system da música brasileira: Caetano Veloso, Elis Regina, Gilberto Gil, Chico Buarque, Rita Lee, Gal Costa, Tim Maia, Roberto Carlos, Maria Bethânia. Os melhores, fazendo meus melhores discos.

A seleção acima não é trivial. Eram os artistas que a mamãe gostava, e tinha discos, e ouvia o tempo todo. Eu cresci os ouvindo. Além das sambistas, Beth Carvalho, Alcione, Clara Nunes. Alguns eu tive que descobrir muito depois, como Jorge Ben, pelo singelo fato de que não estavam na discoteca dela.

Há poucos anos atrás, quando virei DJ de bar, eu colocava os rocks que as pessoas gostavam, mas quando os frequentadores começaram a pedir música brasileira, eu não tive muita dificuldade de fazer uma enorme playlist. Foi só relembrar os discos da mamãe.

Não havia nessa época um gosto autônomo, meu. Com certeza tive alguns discos meus, mas não lembro mais quais eram. Lembro só de um, uma coletânea dos Rolling Stones que tinha uma música que até hoje eu amo muito: “As Tears Go By”.

Então “As Tears Go By” talvez seja a primeira música “minha” mesmo. E o primeiro disco que eu e o André compramos de forma consciente foi “Voo de Coração”, do Ritchie, que tinha o sucesso “Menina Veneno” mas também outras músicas ótimas.

O Ritchie veio junto de uma grande onda: o rock nacional. Foi muito excitante. Lembro muito bem de ver no Fantástico a estreia do videoclipe de “Você Não Soube Me Amar”, da Blitz, que pode ser considerado o marco inaugural.

Na verdade foram duas ondas: a primeira, mais ingênua e lúdica, com Blitz, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Barão Vermelho. E a segunda, por volta de 1985, com as bandas mais “sérias”, RPM, Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude.

O estouro do rock brasileiro mudou pra sempre o mercado discográfico nacional. Ao mesmo tempo, estouraram nas rádios duas grandes bandas estrangeiras: The Cure e The Smiths. Então todos fomos capturados pelo rock tanto em inglês como em português.

Contei aqui sobre meu amor pela Legião Urbana. E no antigo blog sobre como o amor pela música unia nossa turma de amigos, numa época em que, bem, você tinha que ter o disco pra ouvir a música:

Nessa época de vinil e falta de grana, toda vez que alguém comprava um disco novo da Stiletto era motivo de festa. Os bolachões eram “propriedade coletiva”, e o que mais acontecia era a gente ir na casa de um amigo se achando no direito de exigir que disco tocar. “Toca aquele”.

Em tempos de YouTube e Spotify, é difícil imaginar o quanto a falta de grana nos impedia o acesso à música.

Eu comprava sempre a revista Bizz, que me deixava com uma enorme vontade de ouvir um monte de artistas, mas tinha que escolher cuidadosamente o que comprar, porque só havia dinheiro para poucos discos.

Lembro muito bem uma vez que eu visitei um colega de faculdade abonado, e no quarto dele tinha centenas de vinis, muita coisa que eu só ouvia falar e queria muito ouvir, mas não podia. Naquele dia eu me senti muito mal, me senti pobre e limitado.

Depois, quando eu fiquei melhor de grana, coincidiu de eu ir morar só num apartamento pequeno e comprei uma aparelho de som minúsculo e elegante que… só tocava CD. Chamei meus amigos pra uma festa na casa da mamãe e no final pedi que cada um deles escolhesse 5 vinis e levasse pra casa.

Fiquei só com os únicos CDs que eu tinha: “Nevermind” do Nirvana e “Blood Sugar Sex Magik” dos Red Hot Chili Peppers. Mas era a época da farra do dólar do Fernando Henrique e as lojas viviam cheias de lindos CDs importados. Comprei um monte.

Claro que a internet mudou tudo.

Já havia arquivos MP3, eu já tinha gravador de CD pra copiar os dos amigos, já dava pra baixar algumas músicas na net (a primeira foi “Everlong” dos Foo Fighters)… mas ainda não tinha o Napster.

O Napster foi um conceito completamente novo. Compartilhar seus próprios arquivos, criando uma grande fonoteca mundial, era algo que ninguém ainda tinha pensado.

Foi muito emocionante a primeira vez que eu abri o Napster. Eu fiz uma busca pelas bandas mais difíceis, aquelas que eu não encontrava em lugar nenhum, e tinha um monte de músicas de todas elas! Pensei: “agora abriu a porteira, e não fecha mais”. E eu estava certo.

Desapeguei completamente dos discos físicos. Hoje eu não tenho um sequer. Mas eu tinha uma enorme coleção de arquivos MP3, e é um fato da modernidade amar um disco que eu nunca toquei fisicamente.

Nunca tive o menor problema com a pirataria. Mas achava, ainda em 1999, que deveria haver um jeito de pagar um preço justo pra ter a música que a gente queria. Sim, o que hoje é o Spotify, eu via como um sonho quase impossível.

A música me deixa num estado alterado. Nunca tive walkman na infância e na juventude, então, já adulto, cheio de MP3 e com celulares com fone de ouvido, descobri tardiamente um novo mundo. A vida com música parecia um videoclipe constante, e eu me sentia melhor, mais forte, capaz de abraçar o mundo com as pernas.

Muito da minha auto estima de hoje se deve aos meus momentos de reflexão ouvindo música na rua. A música me chamava atenção para o fato de que há beleza em tudo, e às vezes a gente não repara.

Quando uma banda que eu amo lança uma música nova e ela é linda e me emociona, eu choro. Quando eu vou procurar a banda tocando a música ao vivo e eu percebo que não é truque de estúdio, que a banda se doa completamente no palco, eu choro. Quando a plateia do show responde com a mesma emoção que eu sinto, eu choro também.

Já passei muitas noites bêbadas com meu amigo JP, vendo vídeos musicais de todas as procedências, e nos emocionando com eles. Mas eu sequer preciso de álcool pra me sentir assim. Eu sinto essas coisas totalmente sóbrio.

Quando eu disse pra JP que eu chorava todos os dias vendo vídeos de shows no YouTube, completamente sóbrio, ele respondeu: “Marquinho, tu é doido”.

Talvez seja uma forma de loucura, mas eu respeito muito minhas lágrimas, e não sei ser de outro jeito.

Pra ser feliz em toda parte

Eu achava que ia perder o show do Violeta de Outono, desde sempre minha banda brasileira preferida. Tive uma insônia terrível e fui dormir depois de meio dia. Por um milagre acordei no susto às 20 horas, e dava tempo de ir. Fui andando, porque o show era no Hangar, que era perto da minha antiga casa.

Fui cantarolando “Em Toda Parte” que é a minha música preferida deles. “Quando a noite espelha a terra em transe, um som invade a face do planeta”. Eles não tocavam mais essa música ao vivo, e metade do show em geral era de covers de bandas dos anos 60 e 70. Eu soube disso porque fui no site Setlist.fm olhar o repertório dos últimos meses.

Era o Festival Se Rasgum de 2014, e acho que dispensa apresentações pra quem é ligado em música né? Um dos festivais mais criativos do país, reconhecido no centro sul como um celeiro de novas ideias.

Tenho que tirar o chapéu para os moços da organização, com os quais eu já briguei em porta de boate, hehehe. Eu os achava uns metidos, que se achavam demais para o que faziam. Mas, ao contrário de mim (que organizei algumas festas nos anos 90, mas ficou nisso), eles eram operosos e foram construindo aos poucos a marca das festas Dançum Se Rasgum, até chegar ao festival, que este ano (2020) está estreando em São Paulo.

Nesse mesmo dia do Violeta teve o Jaloo, que na época era apenas um DJ de quem todo mundo tava falando, e que fez um show sozinho tocando teclado e com um casal de dançarinos. Fiquei particularmente tocado quando ele anunciou que naquela semana a grande banda eletrônica The Knife estava se separando, e tocou uma cover tecnobrega (em português) de “Pass This On”, que ficou linda.

A noite fechou com a ótima banda de garagem americana Bass Drum of Death, e um show épico de Arnaldo Antunes, que revisitou toda a sua carreira e inclusive seus clássicos dos Titãs.

Mas claro que eu e todos (todos) os meus melhores amigos estávamos lá pra ver o Violeta né.

Eu na muvuca

Quando eu cheguei ainda tinha pouca gente, e quando os músicos foram ligar os instrumentos tinha tipo um fã clube de gente entusiasmada que ficou conversando com o Fábio Golfetti, líder da banda e único remanescente da formação original. Eu só fiquei olhando. Claro que quando começou o show eu fui para o gargarejo.

Em resumo, fizeram um show curto (10 músicas), absolutamente perfeito. Ao contrário do esperado, quase todo o repertório veio dos dois primeiros discos, aqueles que todos nós ouvimos na época, os dois igualmente maravilhosos.

Eu tava sóbrio e achava que, ao contrário de sempre, não iria chorar. Qual o quê! Na segunda música (“Dia Eterno”), no solo eu senti o meu coração ser arpoado pelo som lindo, lindíssimo da guitarra do Fábio.

Eu nunca vou entender quem se contenta com a versão do disco e não enfrenta o perrengue de ir pra um show lotado. Não existe nada como ver as músicas que você ama reinterpretadas ao vivo, com a gana dos músicos mostrando o que sabem para os fãs.

Não acreditei quando começou “Sombras Flutuantes”, outra música que eles quase não tocam. Eles fizeram um show pra nós que São Paulo quase não via mais. E no meio da música o Fábio pôs a guitarra no chão e tocou com slide e efeitos de pedal, e todos nós esticamos o pescoço pra ver ele ajoelhado como um monge louvando a musa.

Terminaram com as duas músicas mais icônicas de cada um dos dois primeiros disco, “Outono” e “Vênus”. Quando Fábio se despedia, o grito de “mais um” foi tão forte que ele olhou para o rapaz da produção, e foi autorizado a dar o bis (coisa que não existe em festival).

Qual ele escolheu pra encerrar? “Em Toda Parte”. E pela segunda vez as lágrimas vieram. Eu me lembrei de quando comprei o vinil e ouvi pela primeira vez. Eu tinha certeza que uma banda que conseguiu fazer dois discos lindos desses iria durar pra sempre.

Existem dias mais ou menos, existem dias bons, e existem dias perfeitos. Naquele dia eu olhava no rosto dos amigos, e todos estavam inebriados de felicidade.

Sangue como vinho

O Balthazar é uma das bandas mais lindas do mundo, e eles me lembram do André.

Eu levei os arquivos MP3 do Balthazar pra São Paulo e morei algumas semanas com meu saudoso irmão gêmeo, no apartamento dele perto da Praça da República.

Ele sempre gostou de folk eletroacústico, e amou Balthazar.

A gente levava no celular e ouvia no cinema antes do filme começar, cada um com um lado do fone.

Essa temporada em São Paulo foi uma das épocas mais felizes da minha vida.

Esse vídeo são 13 minutos de fúria, amor e poesia.

“Blood Like Wine” é a música mais bonita do Balthazar, e essa apresentação específica é uma das mais perfeitas e emocionantes apresentações de show de banda em todo o YouTube.

O Balthazar já fez dúzias de versões dessa música, mas essa é a mais longa, a mais épica, a mais “tela grande” e de comunicação direta com o público, que tava lá em Bruxelas delirando com a entrega total da banda.

Sim, é uma banda que se entrega. Embora pareçam estar num ensaio de casa, brincando e falando com o público, carregam uma emoção imensa nos instrumentos e nas vozes. Lindo demais o trabalho de vozes deles.

O André amou Balthazar e várias outras bandas que eu levei pra ele. Apesar de a gente ter gostos musicais diferentes, havia muito diálogo e troca.

Ele ficou fascinado que eu guardava em MP3 e capas em PDF todas as coletâneas em CD que eu fiz desde 1997.

Ele era lindo, solene, mas triste, e jogava fora as coisas que escrevia, etc.

O Pequeno Príncipe

Uma pessoa como o André ter pisado a face da Terra é algo que insere em mim, um ateu convicto, a dúvida de que talvez exista um Deus justo.

Todos nós que tivemos a oportunidade de conhecê-lo ganhamos uma dádiva rara, e se eu tiver que agradecer por isso, agradeço.

Hoje seria o nosso aniversário e eu fiquei sem comemorar vários anos porque achava que era assim que eu devia homenageá-lo.

Saudações, meu príncipe. Nunca será esquecido.

Sexo, drogas e calças quadriculadas

Diogo é um amigão meu de Icoaraci. Ele chegou comigo um dia e falou: “conheci um rapaz que acho que é gay e é bem o teu estilo”.

Numa farra lá eu vi como era o moço. Lindo. Gordinho e lindo de morrer. Vestia aquelas calças moles de tecido quadriculado que era exatamente o estilo que eu usava na época.

Joãozinho era o nome dele. Naquele dia emendamos pra minha casa, eu, ele e o Diogo. Eu morava só numa casa enorme. Joãozinho inventa de comprar duas caixas de Benflogin pra nós três. Tomamos e ficamos nos divertindo com os delírios visuais do remédio.

Benflogin não te deixa chapado, apenas a visão fica “lenta” e tudo parece estar dançando na tua frente. Uma hora fui na copa, e tava com uma luz forte, toda a prataria da mamãe arrumada, e o brilho começou a dançar, como naquela cena de A Bela e a Fera em que a prataria começa a dançar e cantar.

Naquela mesma noite derrubei o Joãozinho na minha cama, né. Ele era uma máquina de sexo e foi maravilhoso. Diogo dormiu no quarto ao lado e eu espero que não tenha escutado o barulho enorme que a gente tava fazendo.

Começamos um casinho (escondido, porque ele era casado com uma advogada). Ele era muito jovem, tinha muita grana e usava muita droga, né. Eu, tamanho homem, pela primeira vez cheirei benzina, que é uma droga bobinha de adolescente skatista.

As coisas tavam indo rápido mas sem compromisso nem cobrança, até que uma vez estava um outro amigo meu em casa, o Carlos, que é modelo fotográfico, e o Joãozinho, que eu já sabia que era uma puta rampeira, derruba ele num dos quartos, enquanto eu tava em casa. Fiquei muito puto mas não falei nada.

Os dois foram pra Cotijuba, que é uma ilha próxima de Icoaraci. A esposa do João (com quem eu já tinha falado por telefone) me ligou perguntando se eu sabia onde ele estava. Eu, imbecil, deixei escapar o nome da ilha.

Percebi que ela tava louca de ciúme e ia lá procurar por ele. Aí eu fiz a segunda bobagem: peguei o ônibus pra Icoaraci pra avisar o Joãozinho…

Por que eu fiz isso? Não tenho a menor ideia. Só sei que eu gostava dele e talvez estivesse com sede de aventuras.

A travessia de barco pra Cotijuba era, na época, muito barata, uns 3 reais, mas era tarde da noite. O barqueiro só ia levar se eu arrumasse 20 reais. E eu fui furtado no ônibus, acredita? Só sobraram uns 15 reais. Se não tivesse havido o furto, eu teria pago os 20 e partido no mesmo instante.

Fiquei esperando alguém pra completar. Eis que chega no trapiche uma moça branca bem vestida. Vou lá explicar que ela teria que arrumar 10 reais pra completar a viagem.

Ela me olha com atenção e pergunta:

Você é o Marcus?

Percebi na hora: era a Patrícia, esposa do João. Ela nunca me encontrou mas reconheceu a minha voz. Respondo:

— Não, eu sou o André, irmão dele.

Ela sabia que eu tinha um irmão gêmeo, ela batia papo comigo pelo telefone porque o João dizia que eu era o melhor amigo dele e tal. Entre outras coisas, falei do André, que era meu gêmeo idêntico.

Eu devo ter sido o melhor ator do mundo, porque ela acreditou que eu era ele.

E ela adorou o “André”, achou ele super simpático e ficou do lado dele (do meu lado) desabafando todo o ódio que ela tava sentindo do marido — e de mim também.

— Desculpa, eu sei que é teu irmão, mas o Marcus é um viado safado que seduziu o meu marido!

Me senti num sonho, num filme. Ela tava falando mal de mim pra mim mesmo, achando que eu era outra pessoa.

Fiquei tão fascinado pela situação (e por ela ser uma imbecil que acreditou na minha mentira) que fui dando corda:

— Não precisa se desculpar não, eu sei que o Marcus é irresponsável, não é a primeira vez que ele apronta dessa. Ele devia deixar os rapazes heteros em paz, não devia desencaminhar eles…

(é claro que o João não era hetero porra nenhuma, era uma vadia que fazia um teatro pra sugar o dinheiro da mulher. O dinheiro que ele esbanjava comigo era dela e não dele)

Ela falou mal longamente de mim, e eu fazendo um esforço enorme de não gargalhar (até porque, se isso acontecesse, era capaz de ela me jogar no fundo do rio).

Chegamos na ilha, dei um vaivém nela e fui atrás do João e do Carlos. Eu teria no máximo meia hora ou uma hora de dianteira.

Os achei facilmente na praia do Vai Quem Quer. João ficou possesso, achando que eu tava fazendo uma cena de ciúme… aí eu me revoltei:

— Cala a boca, idiota, eu vim te avisar! Tua mulher vai cortar teus culhões se tu não te esconder agora mesmo!

Ele não acreditou, e ficou um tempão nesse estica encolhe, com o Carlos assistindo perplexo o chilique dele.

Até que acontece o óbvio: Patrícia chega e vê a cena. Claro que ela percebeu na hora que eu não era o André, e os gritos que essa mulher dava eu acho que acordaram a ilha inteira.

Eu me afastei pra ver de camarote a presepada (e pra não pegar safanão também).

O mais engraçado de tudo foi que… a Patrícia era uma mulher linda, e o Carlos, que é bi, disse pro João que ia conversar com ela, mas na verdade tava flertando com ela — e ela deixando.

Visualizem a comédia pastelão. Certa hora Carlos e Patrícia entram num dos quartos de pousada e João fica desesperado batendo na porta, louco de frustração e ciúmes.

Fui embora porque tenho um medo atávico e genuíno de gente louca, né.

Dias depois, Patrícia me liga se desculpando e contando uma história de que o João fez macumba pra “amarrar” ela. E que roubou uma quantidade grande de dinheiro que ela guardava em casa.

Percebi que aquilo poderia ser minha primeira novela, quando eu me dispusesse a escrever ficção, mas foda-se, agora que tem o blog, resumi o máximo possível pra contar pra vocês.

Ela processou ele na Vara da Infância e da Adolescência (sim, porque, pra completar, ele, que parecia ter uns 22 anos, tinha só 17). E me arrolou de testemunha.

No último capítulo dessa ópera bufa, tive que ir no juiz falar sobre os fatos.

Antes do roubo a Patrícia tinha comprado em Belo Horizonte uns 5 mil reais de roupa pro Joãozinho ficar vendendo e ter uma renda. Ela não queria sustentar ele pra sempre, né.

O juiz perguntou sobre essa questão da roupa e eu respondi:

— Meritíssimo, ela gostava muito dele, ela trouxe 5 mil reais de roupas lindas pra dar de presente pra ele.

Todos os advogados e servidores na audiência caíram na gargalhada, porque eu tava derrubando toda a acusação dela.

No final o juiz me perguntou se eu tive um caso com o João. Respondi:

— Que é isso, doutor? Eu sou hetero.

A rosa branca na calçada

Naquele dia eu tinha ido ver “Uma Mulher contra Hitler” no Olympia, com uma amiga querida. Eu sabia que era um bom filme, mas não estava preparado para a força avassaladora dele.

Houve uma grande batalha moral e filosófica no século XX, e ela foi vencida metaforicamente por Sophie Scholl naquela salinha em que enfrentou o inspetor Held, a ponto de deixá-lo literalmente sem ter o que dizer.

Na época ninguém sabia dessa pequena vitória. Hoje sabemos.

Eu saí depois com minha amiga e ficamos andando nas ruas conversando sobre liberdade, que era o único assunto pertinente depois de ver esse filme.

Quando eu fui pra casa e soltei os gatos, Noel se aproveitou de novo e pulou para o jardim do vizinho.

Ele sempre faz isso. Virou rotina, quase todos os dias. O jardim do vizinho é praticamente o Éden dos gatos, tem uma cerca viva que eu acho que eles ficariam lá todos os dias da sua vida.

Mas não tem como ele voltar, então ele sempre fica na grade fechada miando pra eu colocar ele pra dentro de novo. Eu abro e xingo ele de tudo o que é nome, mas não adianta. Claro que ele entende, mas não liga.

Pensei no que Sophie faria nessa situação.

Por volta de uma da madrugada eu abri o portão da vila e deixei ele sair. Saí com ele, fechei o portão a chave e me sentei na calçada. Ele ficou andando pra tudo que é lado, confiante que eu estava lá. Apesar de tudo, ele confia em mim.

O que fazer por alguém que a gente ama, a não ser dar-lhe o que ele quer?

Noel, assim como todos os gatos, assim como todos os seres humanos, assim como Sophie Scholl, anseia por liberdade. Mais do que isso. Anseia pela liberdade da aventura, pelo desconhecido, pelas alturas, por tudo o que está longe e é um desafio para alcançar.

Quem sou eu pra dizer: “fique aqui, em segurança, fique comigo pra toda a vida, e seja menos você”?

Não tenho como dizer isso pra essa criatura que eu amo tanto.

O nome da gangue pacifista de Sophie era Rosa Branca. Metaforicamente, havia uma rosa branca saindo do meio das pedras de lioz da Cidade Velha.

Mas Noel ficou cansado, quis entrar, e as minhas divagações filosóficas foram abreviadas pelas necessidades comezinhas da vida.

Como sempre são. Como sempre serão.

A fé do atacante diante do gol

Quando eu era criança e via futebol na TV de tubo, só uma parte do jogo aparecia, e de repente havia uma “surpresa” e uma jogada genial chegava ao gol.

Na primeira vez que eu vi no campo, percebi que nada disso era verdade. Não havia surpresas. A jogada genial já tava sendo enxergada por todos desde o início, desde o primeiro toque. O gol saía porque o atacante acreditava que aquele caminho óbvio, que tava sendo visto por todos, era bom o suficiente, e a força da fé dele era maior do que a descrença dos adversários.

Totalmente idiota a associação, eu sei, mas pensei nisso quando acordei de susto hoje e fui ouvir música.

Eu fiquei de DJ ontem no barzinho dos amigos aqui na esquina de casa, consegui alguns sorrisos das meninas, dancei colado com a minha melhor amiga, e no final tava morrendo de sono. Cheguei em casa depois da meia noite, soltei os gatos pra brincarem na vila de casa (tenho 4 deles) e… apaguei, dormi até 5 da manhã.

Eu parei de beber mas tenho sido tomado pela embriaguez do amor próprio, de perceber que o que eu faço é bom e relevante, e que eu tenho que continuar a fazer até perder os sentidos.

Eu acordei no susto, a casa toda aberta, e foi como se a noite não tivesse sido interrompida. Liguei o fone, coloquei no shuffle geral (aquele que toca qualquer música das 3 mil do celular) e… começa a tocar uma música ridiculamente linda que eu não lembrava de ter ouvido alguma vez na vida.

Era uma música acústica onde a genialidade da melodia, como a jogada do atacante no estádio, a gente já percebia no primeiro compasso, a gente sabia onde ia dar, e fica pensando: por que eu mesmo não fiz essa música? E a resposta era a mesma do futebol: porque, ao contrário de mim, o autor da música acreditou que aquele caminho era bom e que a música ficaria bonita e faria alguém feliz.

Ouvi a música, nem um pouco surpreso com as lágrimas que começavam a jorrar, e os gatos miavam porque queriam comida.

Eu fui dar ração, fechar a porta, tentando perplexo entender o que tinha acontecido, como se eu tivesse ouvido a música ainda no sonho, e não logo depois de acordar.

E, como os sonhadores, anotei no papel o panorama sem lógica que aparecia na minha mente, e venho aqui correndo contar pra vocês.

Ninguém perde amigos por dar trela aos seus delírios.

Vestido e armado com as tuas armas

(republicado) Jorge de Anicii, o Cavaleiro de Cristo, descansa permanentemente em lugar de honra na minha mesa de trabalho, com sua pose mais gloriosa.

Dona Amparo, sabendo-me devoto do santo, e tendo conhecimento de que o devoto não deve comprar a imagem, mas ganhá-la de presente, trouxe-me-a de uma viagem a Aparecida. Tenho uma outra, maior, presente de um amigo, mas ainda não pude buscá-la.

Hoje, 23 de abril, é o dia de São Jorge. O santo guerreiro teria morrido há exatamente 1.704 anos, mas… a verdade histórica é o que menos importa, baby. Não se faça de bobo acreditando na infinidade de lendas sobre ele.

Pense no que ele representa no coração das pessoas; isso sim é importante. O espírito indômito. O inconformismo contra as injustiças. A coragem de enfrentar os poderosos. A força, a elegância, a graça.

Prestar esse louvor não faz de ninguém carola ou cúmplice de uma igreja corrupta. Jorge foi entronizado pelo povo e não por uma malta de bispos. Caso único na história.

Padroeiro de tantas cidades e países, é amado na Catalunha, e uma experiência inesquecível foi estar num 23 de abril desses na festa de Sant Jordi (seu nome catalão) em Barcelona.

Como homem sábio que era, Jordi patrocina também a cultura, e por ter salvo sua amada do dragão, abençoa o amor romântico. Na Catalunha seu dia é também o dia do livro e o dia dos namorados, e todos se dão livros e rosas de presente.

As vias públicas da bela capital ficam abarrotadas de banquinhas vendendo os presentes, que em tempos menos afeitos à igualdade sexual eram mais específicos: as moças ganhavam as rosas, e os rapazes os livros. Como já se sabe que elas não são imunes à inteligência e nem eles ao amor, ganham-nos hoje indistintamente.

Naquele 23 de abril, dei dois livros e ganhei um, que guardo até hoje (La ciudad de los prodigios, de Eduardo Mendonza); dei uma rosa e ganhei duas. Fui às missas e aos folguedos, e tenho me sentido, sempre, vestido e armado com as armas de Jorge. Vendo facas e lanças se quebrarem antes de chegar a mim, e sabendo que ninguém nem em pensamento pode me fazer mal.

Jorge da Capadócia
(Jorge Ben)

Jorge sentou praça na cavalaria
Eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem
Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal

Armas de fogo, meu corpo não alcançarão
Espadas, facas e lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
Cordas e correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge

Jorge é de Capadócia, viva Jorge
Jorge é de Capadócia, salve Jorge

Perseverança ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor

(a letra da música é uma adaptação da oração do santo. Este texto foi publicado originalmente em 2007)

Por ele mesmo

(republicado) “as pessoas vêm me procurar, ficam falando, torrando a paciência: os futuros rabinos, os revolucionários com seus fuzis, o FBI, as puras, as poetisas, os jovens poetas da Estadual da Califórnia, um profe de Loyola a caminho de Michigan, outro da Universidade da Cal. em Berkeley, um terceiro que mora em Riverside, 3 ou 4 rapazes com o pé na estrada, simples vagabundos com livros de Bukowski armazenados no crânio… houve tempo em que achei que essa turma toda ia invadir e acabar com a minha bela e preciosa vidinha, mas depois vi que tenho uma sorte danada, pois cada homem ou mulher me trouxe e deixou muita coisa, e não preciso mais me sentir que nem Jaffers, protegido por um muro de pedra, e também posso me considerar felizardo, porque a pouca fama que tenho é em grande parte secreta e tranquila, e dificilmente virei a ser um Henry Miller com gente acampada no gramado em frente de casa; os deuses foram generosos comigo, me deixaram vivo e inteiro, sempre ativo, anotando tudo, observando, sentindo a bondade das pessoas decentes, sentindo o milagre correndo pelo braço acima feito rato maluco, uma vida dessas, a mim concedida na idade de 48 anos, mesmo que o dia de amanhã seja uma incógnita, é o mais doce dos sonhos possíveis”.

Charles Bukowski

Fabulário Geral do Delírio Cotidiano, L&PM, p. 139
Tradução de Milton Persson

Post publicado originalmente em outubro de 2005.

Sinais de vida inteligente… na Terra

(republicado) O caso dos círculos nos campos de trigo da Inglaterra é hoje bastante conhecido. Todo mundo já ouviu falar nos estranhos desenhos, com formas complexas e que só podem ser vistas de cima. Talvez por serem muito numerosos — na casa dos milhares! — e não terem, a princípio, qualquer explicação, atiçaram a imaginação de muita gente. Alguns os consideram a única evidência física inequívoca da presença de visitantes extraterrestres em nosso planeta.

A alta complexidade dos desenhos e o fato de serem construídos literalmente “da noite para o dia” estimulou essa crença na origem extraterrestre do fenômeno. Chegou-se a falar na existência de radiação nos locais, além de estranhas alterações nas plantas. E os primeiros círculos apareceram próximos a locais de significado místico, como o monumento do Stonehenge.

Círculo em campo de trigo

O que muita gente não sabe é que esse “mistério” já é um segredo de polichinelo há quase 15 anos, desde que os artistas ingleses Doug Bower e Dave Chorley confessaram ser os autores de centenas de círculos em diversas plantações de cereais do país, desde os anos 70. Chegaram a deixar suas iniciais (“DD”) em alguns deles.

Após a revelação, foram acusados de fazer parte de uma fraude destinada a esconder a verdadeira origem dos círculos, mas o fato é que é mais do que plausível que os desenhos tenham sido feitos por seres humanos.

Se foram realmente eles que fizeram os primeiros círculos, não importa: a cada ano aumenta o número de episódios, o que quer dizer mais gente aderindo ao que está sendo chamado de um grande fenômeno artístico-cultural. A complexidade dos desenhos também é maior a cada ano, pelo aprimoramento do know-how de sua fabricação.

Círculo em campo de trigo

Alguns criadores de círculos agem abertamente, como os Circle Makers, que mostram didaticamente como criar desenhos incrivelmente elaborados em poucas horas.

O assunto voltou à moda com o filme de M. Night Shyamalan, Sinais, que, como bom produto hollywoodiano, foi procurar uma explicação fantasiosa para o fenômeno. O problema é que algumas pessoas parecem não distinguir a ficção da realidade…

Não vou ficar aqui debatendo a autoria dos círculos. Isso é o mesmo que discutir com criacionistas — dá um trabalho danado e você sente que perdeu seu tempo. Mas numa coisa eu concordo com os teóricos da conspiração: esses desenhos são resultado de vida inteligente sim! Mas na Terra…

Círculo em campo de trigo

Essas ações de seres humanos semeando a dúvida e questionando a credulidade das pessoas são, claramente, uma forma de arte contemporânea. Ao contrário de alguns de seus congêneres, que põem vacas em fatias nos museus, ou fazem esculturas em sangue congelado, estes artistas não só cumprem seu papel de intervir criticamente na realidade como também se preocupam com a beleza de seu trabalho — o que, estranhamente, há algum tempo não é considerado algo essencial na arte.

E a “intervenção” tem bastante humor também: quando alguns estudiosos do fenômeno propunham explicações esdrúxulas como a de um “vórtice plasmático eletromagnético” (!?!), os criadores prontamente faziam outro círculo que desmontava a explicação! Que bom que ainda existem exemplos de arte contemporânea que não são só masturbação intelectual…

(publicado originalmente em abril de 2005)

A vida, por um jovem

(republicado) “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de J. W. Goethe, é um belo romance e foi um sopro de lirismo e amor pela vida que me pegou desprevenido em um determinado momento em que eu estava precisando muito disso.

O romance, epistolar, não tem outro assunto que a busca de Werther pela felicidade e pelo amor. A carta abaixo é, na minha opinião, o momento mais emocionante dessa busca.

A tradução é de Marion Fleischer.

Que a vida do ser humano não passe de um sonho, eis uma impressão que muitas pessoas já tiveram, e eu também vivo permanentemente com essa sensação. Quando observo as limitações que cerceiam as forças ativas e criadoras do homem, quando vejo como toda a atividade se resume em satisfazer as nossas necessidades, que, por sua vez, não visam outra coisa senão prolongar nossa pobre existência; quando percebo que todo apaziguamento em relação a determinados pontos de nossas buscas constitui apenas uma resignação ilusória, uma vez que adornamos com figuras coloridas e esperanças luminosas as paredes que nos aprisionam — tudo isso, Wilhelm, me faz emudecer. Volto-me para mim mesmo, e encontro todo um mundo dentro de mim! Novamente, vejo-o mais a partir de pressentimentos e de vagos desejos, muito mais do que nitidamente contornado e povoado de forças vivas. Tudo então passa a flutuar diante dos meus sentidos, e prossigo sorrindo e sonhando na minha jornada pelo mundo.

Todos os pedagogos eruditos são unânimes em afirmar que as crianças não sabem por que desejam determinada coisa; mas também os adultos, como as crianças, andam ao acaso pela terra, e, tanto quanto elas, ignoram de onde vêm ou para onde vão; como elas, agem sem propósito determinado e, igualmente, são governados por biscoitos, bolos e varas de marmelo: eis uma verdade em que ninguém quer acreditar, embora ela seja óbvia, no meu entender.

Concordo — pois já sei o que me vais responder — que os mais felizes são aqueles que, como as crianças, vivem a esmo dia após dia, carregando suas bonecas, vestindo e despindo-as, rondando respeitosos a gaveta onde a mãe guardou o pão doce, e gritando, com a boca cheia, quando finalmente conseguem o que cobiçavam: “Quero mais!” Estes são felizes. Também são ditosos aqueles que dão títulos pomposos às suas míseras ocupações ou até mesmo às suas paixões, alegando que se trata de empreendimentos gigantescos, destinados à salvação e ao bem-estar da humanidade. Bem-aventurado aquele que consegue ser assim! Mas aquele que humildemente percebe a que leva tudo isso, vendo como o cidadão, quando satisfeito, transforma o seu pequeno jardim num paraíso, como, por outro lado, até mesmo o deserdado da fortuna carrega corajosamente o fardo e segue o seu caminho, e como todos, afinal, desejam igualmente enxergar a luz do sol por um minuto mais — quem observa a tudo isso recolhe-se no silêncio, molda o seu mundo à semelhança de seu próprio íntimo, e também é feliz porque é um ser humano. E então, por mais limitado que seja, guarda sempre no coração a doce sensação da liberdade, sabendo que poderá livrar-se do cárcere quando quiser.

(publicado originalmente em dezembro de 2004)

O suave bater de suas poderosas asas…

(republicado) Alguém pergunta, perplexo com a morte do jogador no meio da partida:

Então é isso a morte? Num segundo você está bem, no meio de uma partida de futebol, e de repente estremece, tomba e está morto?

E eu fico me lembrando de uma das melhores histórias de Sandman, onde ele acompanha sua irmã Morte em sua faina cotidiana de levar as pessoas desta para melhor. Em determinado momento ela pega um bebê do berço e o leva. O bebê pergunta: “é só isso?” e ela responde: “é”.

Sandman está em crise existencial sobre sua própria função no mundo. Mas a forma mansa como sua irmã desempenha seu mister o acalma, e ao final ele faz algumas reflexões:

O som de asas… Eu me descubro especulando sobre a humanidade. A atitude deles quanto à dádiva da Morte é tão estranha… Por que eles temem as terras sem sol? É tão natural morrer quanto nascer. Mas eles a temem. Têm terror. Debilmente tentam aplacá-la. Eles não a amam.

Muitos milhares de anos atrás, eu ouvi uma canção num sonho, uma canção mortal que celebrava a dádiva dela. Eu ainda me lembro dela:

“A morte está diante de mim hoje:
como a recuperação de um doente,
como ir para um jardim após a doença

A morte está diante de mim hoje:
como o odor de mirra,
como sentar-se sob uma vela num bom vento

A morte está diante de mim hoje:
como o curso de um rio,
como a volta de um homem da galera para a sua casa

A morte está diante de mim hoje:
como o lar de um homem que anseia por ver,
após anos passados como um cativo”

Aquele poeta esquecido compreendia as dádivas dela. A Morte tem uma função a realizar. E eu tenho responsabilidades. Eu caminho ao lado dela, e as trevas se levantam da minha alma. Eu caminho com ela, e ouço o suave bater de suas poderosas asas…

(publicado originalmente em outubro de 2004)

Planet Hemp – Samba Makossa

(publicado originalmente em meu site pessoal MuzikaZipada, em 1º de agosto de 1999)

“Samba Makossa” foi lançada originalmente no primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, “Da Lama ao Caos”. Após a morte de Chico, o Planet Hemp fez essa cover, apresentada pela primeira vez no Heineken Concerts de 1997. A versão saiu depois não em disco do Planet, mas em “CSNZ”, primeiro disco da Nação Zumbi sem seu líder.

Em sua curta carreira, Chico Science apontou caminhos interessantes para o rock brasileiro, e também tocou em alguns nervos expostos do imaginário nacional, ao chutar para o alto a ideia de nação cordial destinada a um grande futuro no panorama mundial.

A sua temática é outra: um país afundado até os joelhos na lama, lutando ingloriamente por uma identidade própria, e também com cada um lutando por sua sobrevivência a qualquer preço, num caldo de cultura parecido com o mangue tão falado.

Ao recusar as parabólicas convencionais e preferir enterrar a sua na lama, Chico estava dando uma pista que o identifica com a antropofagia de Oswald de Andrade: não podemos recusar o que vem de fora, mas não podemos aceitar do jeito que vem, que isso ainda vai nos matar.

O Brasil é um lugar absurdo. Onde Sérgios Nayas podem ficar passeando à vontade na ponte aérea Rio / Miami, mas o Planet Hemp pode ser preso por dizer que fuma maconha. O Brasil é um país mestiço em que parte da elite se imagina branca e europeia. E o Brasil também é um país europeu que quer ser eternamente visto como aquele primo exótico, pouco sério, habitado pelos “mulatos inzoneiros” imortalizados por Ari Barroso.

Jorge Luís Borges, argentino mas britânico de coração, disse certa vez que a América Latina não existe. O Brasil é parte da América Latina e… desculpem, mas o Brasil também não existe. É uma ficção, criada para que não nos tornemos uma nação de verdade. Para justificar um passado de opressão e alienação. Somos um povo alegre porque nos esquecemos dos motivos para sermos tristes…

Nick Cave, australiano de nascimento, morou alguns meses no Brasil e disse que não entendia como as pessoas fingiam tanto ser alegres. Perguntavam para ele “como alguém tão triste podia viver no Brasil”, e ele ria, respondendo que o Brasil era o país mais triste que ele tinha conhecido!

Chico Science não era exatamente um compositor genial, mas tinha a percepção exata do zeitgeist tupiniquim, uma visão adiantada sobre o que, enfim, esse país precisa. Não de uma carnavalização eterna, mas da percepção direta de seu espírito trágico, de sua história de pilhagem e destruição, e de suas outras possibilidades enquanto nação jovem e pobre.

Vejam essa bela música: o malungo que pega a bronca por ter chegado atrasado à roda de samba não tem nada a ver com o mulato inzoneiro daquela outra (“Aquarela do Brasil”). Ser do samba não é um traço de cordialidade ou alegria… na verdade, tocar o pandeiro é manter-se inteiro, como diz a letra. Manter-se sendo o que é, sob pena de morrer, ou pior, se desgraçar. Só assim é possível entender o samba e toda a resistência dos negros para manter suas raízes, apesar da repressão dos brancos.

Chico queria pensar essas coisas todas, e talvez por isso tenha batizado sua banda de “nação”. E não qualquer nação, mas a Nação Zumbi, signo dessa tal história de pilhagens, mistureba de sons só possível com um olhar antropofágico, e além do mais, a melhor seção rítmica do planeta.

Quando ouvi pela primeira vez a versão do Planet, na TV Cultura, tive a mesma sensação que me assaltou quando ouvi Marisa Monte cantando “Comida” dos Titãs. A sensação de existir um mundo dentro da música brasileira que eu não conheço, que às vezes só vem à tona quando um artista generoso nos dá uma nova visão sobre uma canção.

Assim como “Comida”, que era uma brincadeira com poesia concreta, se transformou num verdadeiro hino na versão jazz-maracatu de Marisa, “Samba Makossa”, que ficava meio perdida entre as pérolas da Nação Zumbi, se afirmou agora o que verdadeiramente é: um clássico da música brasileira. E com direito a trechos do “Monólogo ao Pé de Ouvido”, o manifesto dos novos tempos que estavam por vir.


(sim, o blog voltou. Nem que seja apenas para republicar textos antigos e que merecem ser relidos)

Publique-se a lenda

Belém, 1986.

A Legião Urbana era a maior banda de rock do Brasil. Seu segundo disco enfileirava hits nas rádios: “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica”, “Quase Sem Querer”, “Índios”… eu, adolescente sem grana, aguardava ansiosamente o final do mês, quando receberia o dinheiro de umas aulas particulares e poderia finalmente comprar o disco. Realizado o desejo, o disco tocava tanto na vitrola, e sempre no volume máximo (como mandava a etiqueta da capa), que mamãe estava ficando meio doida de escutar rock num volume tão alto por tantas horas no dia.

Quando é anunciado um show único deles, no ginásio da Escola Superior de Educação Física, toda a cidade acorre às bilheterias. No dia do show, além das 12 mil pessoas com ingresso na mão, há umas 5 mil tentando desesperadamente entrar. Cambistas enriquecem, vendem a peso de ouro tudo o que têm, e ainda sobra muita gente do lado de fora.

Não tenho porte suficiente pra ficar no gargarejo. Vou para as arquibancadas, onde vejo o melhor show de rock nacional da minha vida. Eles abrem com “Que País é Esse?”, com guitarras mais sujas e um riff diferente do que ficou imortalizado no disco seguinte. Desenrolam o repertório perfeito dos dois primeiros, deixando o público em transe e derrubado de tanto pular e gritar. No final (antes do bis), a pièce de résistance: “Tempo Perdido”, tocada num groove mais acelerado, incrivelmente bom. O ginásio inteiro está rendido.

Mas eis que o acaso atinge em cheio o destino: uma sandália havaiana é jogada da plateia e acerta Renato Russo perto do rosto. A prima donna do rock brasileiro devolve-a à plateia, diz apenas “tchau, Belém”, e foge do palco junto com o restante da banda. Como sempre acontecia, uma van com o motor ligado os esperava na saída dos camarins, e dessa forma a maior noite de rock da história da cidade termina em clima de coito interrompido.

Muitos anos depois, numa rodinha de violão na praia, onde “Tempo Perdido” é peça obrigatória, uma amiga do meu irmão caçula conta pra mim a história daquele show. Ela não tem idade pra ter estado nele, mas fala com detalhes de como Renato anunciou “Índios”, “em homenagem à multidão de indiozinhos na plateia”, e isso enfureceu alguém do público, que jogou a sandália em represália.

Não tinham se passado nem 15 anos, e já havia uma lenda totalmente enraizada nas mentes dos jovens da cidade. Na época, a Legião sequer tocava “Índios” nos shows, pois achava a música “muito séria” para fazer as pessoas dançarem ao som dela. Digo à moça que as coisas não foram bem assim, mas ela teima tanto que eu quase a agarro pelos ombros, gritando: “Ei, eu estava lá! Ninguém me contou”.

Eu não devia, claro, ter reagido dessa forma. Eu e todo mundo fazemos exatamente isso o tempo todo: inventar fatos, pormenores, detalhes para colorir os acontecimentos da vida real. Nós sempre estamos inventando histórias, e nem precisamos publicá-las nas livrarias, porque a tradição oral já é suficiente para imortalizá-las na memória. Com os memes da internet, então, criar uma lenda hoje é até mais fácil do que estabelecer a verdade de um fato qualquer fato.

De vez em quando escrevo umas coisinhas de ficção, mas não há nenhuma novidade nisso. “Escrevemos” ficção desde sempre; quando, por exemplo, inventamos deliberadamente fatos que não aconteceram, pelo puro prazer de uma história divertida (mesmo que falsa). Amigos que poderiam desmentir as histórias, em vez disso, as repassam tal como contadas. Há uma pequena conspiração espontânea, onde cada um ajuda a fortalecer as lendas criadas pelo outro.

Estádio do Mangueirão, 1996.

O Remo estava tentando eliminar o Corinthians da Copa do Brasil, antes do gol contra de Castor, no último minuto, que empatou o placar. Eu, que nunca tinha ido ver o Remo no campo, foi arrastado pelo meu amigo remista fanático João Pedro, o popular JP.

O estádio está tão lotado que começa um empurra empurra seríssimo nas arquibancadas de cima. Eu tava vendo a hora de pessoas caírem da grade ou serem pisoteadas. JP tinha bebido demais, estava passando mal; e achei que a vida dele corria perigo.

Não consigo abrir caminho na passarela de acesso, então tomo uma decisão meio desesperada: pego meu amigo pela mão e abro caminho para cima, no meio da arquibancada lotada.

Eu estava incomodando muito as pessoas, pisando em mãos e pés. A cena era bizarra, com JP quase desmaiando atrás de mim. Ele, o garanhão que comia metade da população feminina da Universidade, tinha o cabelo comprido e usava blusas andróginas.

Alguns engraçadinhos começam a gritar pra mim: “Ei, viado! Leva embora a tua namorada!”

Não ligo pra eles, estava preocupado apenas em chegar ao pórtico de acesso. Mas penso numa historinha perfeita para a ocasião. Apenas penso, não aconteceu de verdade:

“Me viro pra eles e grito: melhor ser viado do que ser Paysandu! Os engraçadinhos se calam, e sou aplaudido pelas pessoas ao redor, que abrem caminho para nós dois passarmos”.

Conto a história como verdadeira a todo mundo. JP nunca a desmentiu. Hoje muita gente pensa que isso realmente aconteceu.

É por isso que precisamos obedecer com rigor à ordem de John Ford:

Se a lenda é melhor que o fato, publique-se a lenda.

Oscar, Vik Muniz e Banksy

Eu tinha acabado de chegar da rua e liguei o micro do meu irmão. A timeline do Twitter já estava piando os primeiros pitacos e informações sobre os indicados ao Oscar.

Portais brasileiros com notícias cheias de erros. Vou então ao Oscar.com ver a lista completa. Lemos com atenção as indicações em todas as categorias, eu e meu irmão, e quando chega a de documentário, ele me avisa que “Waste Land” (que depois eu fui saber que se chamava em português “Lixo Extraordinário”) é um documentário brasileiro sobre nosso artista plástico mais conhecido no mercado internacional, Vik Muniz — que fez, aliás, a abertura da novela as 9 que acabou de terminar, “Passione”.

Vou imediatamente piar a informação para a timeline, deplorando que até aquela ocasião (quase meia hora depois do anúncio) os portais brasileiros ainda não tinham destacado isso em manchetes. E não é a primeira vez que acontece. A imprensa fica olhando só para o Oscar de filme estrangeiro e esquece às vezes das categorias de doc e animação, que já renderam indicações para brazucas.

Vi uma exposição-monstro de Vik Muniz no MASP, em 2009, totalmente encantado. Mas o Tiago avisou que o doc em si é fraco e que não está à altura do trabalho de Vik.

O que é  interessante é que o franco favorito ao Oscar de doc em longa metragem é obra de outro artista plástico instigante e pop ao mesmo tempo, Banksy, cujo “Exit Through the Gift Shop” eu estou doidinho pra ver. Pelo que sei, o filme subverte totalmente o gênero, pois havia um cineasta tentando documentar o misterioso Banksy (que não mostra o rosto), e este vira a mesa a passa a documentar o outro cineasta tentando encontrá-lo.

Não sei ainda como a história acaba, mas deu água na boca. Banksy faz arte contemporânea que não é chata, que não é hermética nem fácil demais, e que tem uma mensagem política que passa longe do panfletarismo.

Acho que todos já viram a abertura que ele fez para os Simpsons, não? Prova atualíssima de que o “suporte da obra de arte” já foi desta para melhor. Oremos!

Poeira de estrelas

A imagem apareceu de supetão, sem aviso nenhum. Era assim. Estrepulias festeiras entre eu e meus amigos, cerveja incluída, numa alegre vila ao estilo europeu. Talvez seja próximo do final de ano.

Não sei quem são os amigos. Não sei se é uma história real ou um filme em que a minha imaginação “robô” me pôs dentro. Talvez seja 2001. Talvez antes. Não sei. Mas eu sei que estou dentro da cena.

A imagem (em movimento) é só isso, um fragmento tão pequeno quanto um papiro egípcio que fosse encontrado só hoje, em pedaço de poucos centímetros.

Mas é uma imagem real, forte, emotiva, e estava perdida na memória há anos. Voltou hoje de manhã, do nada. E faz parte, sim, do meu passado real ou fictício — porque até hoje eu sonho acordado e invento histórias na cabeça.

O melhor, meus caros: eu estava dormindo.

Não foi bem um sonho. Foi naquele ponto onde começa a terminar o sono profundo e vem em algum tempo a vigília. Na primeira noite de sono sob o efeito do novo e poderoso antidepressivo.

Na primeira noite, viram?

Até semana passada eu chorava de vez em quando, de manhã, sozinho no meu kitnet, derrubado de tristeza, pensando em dona Amparo e naquele cretino, o Cecílio. Hoje a lembrança perdida (e reencontrada) me fez chorar de alegria.

Que pena que voltei a ser ateu. Eu teria feito a prece de agradecimento mais bonita que minha cabeça conseguisse inventar.

Isso aconteceu hoje de manhã. Juro pelo amor da minha mãe.

Obrigado, poeira de estrelas.

MUITO OBRIGADO.