Pileque de Kronenbier

Numa clínica psiquiátrica são os carneirinhos que contam a gente, e não o contrário. O tempo parece sólido.

Por isso, um mero exercício de alongamento, daqueles com instrutor, tem o valor de um passeio à Riviera.

O bom é que começamos deitados em colchonetes, no pátio, cujas sombras nos protegem do sol e permitem apreciar a inacreditável manhã em que cúmulos velozes pincelam o céu mais azul que já existiu. Eu penso que maluquices meu amigo Paulo Ponte Souza faria se pudesse pincelar esses cúmulos com a mesma fúria do vento daquela manhã.

Depois dos alongamentos o instrutor me franqueia seu case de CDs, para colocar música nos 15 minutos que restam. O estilo do case é “MPB chata”, mas há uma coletânea do Caetano, e consigo ouvir em sequência: Odara, Cinema Transcedental e O Quereres.

Na clínica é raro ouvir música boa, então me sinto novamente enlevado, dançando discretamente em pleno “banho de sol” dos pacientes.

Essas epifanias inesperadas são como ficar de pileque de Kronenbier (uma cerveja sem álcool). Mais uma prova de que a música é a droga mais forte, mais viciante e com menos efeitos colaterais que existe.

Insights me emocionam e me fazem chorar, mas eu, como bipolar, preciso estar atento e forte. Quando qualquer iluminaçãozinha vira uma enxurrada de felicidade, os momentos “normais” parecem tristes e inúteis.

E aí, meus caros, é partir para a mistura cultural: o caminho do meio de Sidarta, a lucidez cética de Coelet, e, sim, os remedinhos milagrosos da modernidade farmacêutica, tão discretos que parecem placebo.

A nota destoante de um post tão alegrinho vem via Caetano, naquela mesma “O Quereres”, onde diz que:

O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual, faz-me querer-te bem e querer-te mal.

Uma síntese de porque talvez estejamos todos, a longo prazo, fudidos e mal pagos.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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2 respostas para Pileque de Kronenbier

  1. Andréa N. disse:

    Que bom te ver te volta! Espero que vc esteja se sentindo melhor. Já tive duas crises de depressão, brabas, e sei como é foda. Tamo junto. Abraços solidários de Feliz Ano Novo.

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