Money, money, money

O dinheiro queimava no meu bolso. Muito dinheiro. Vários maços de notas de 100. Era tudo verdade. O dinheiro era meu. Houvera, sim, um comprador para o apartamento. O imóvel que representava a poupança de uma vida inteira. No caso, a da mamãe. E eu, herdeiro legítimo, tinha uma vontade enorme de gastá-lo inteiro.

O extrato de seis dígitos parecia uma sentença de morte. Não. Eu não quero viver administrando o dinheiro da mamãe. Também não darei aos pobres. Eles não o aproveitariam tanto quanto o farei, em todo tipo de experiência bizarra.

Totalmente inconsequente. Diagnosticado como borderline. Mas o diagnóstico estava errado. Borderliners não sentem empatia. E a empatia jorrava em mim. Passei a amar com mais intensidade os amigos que já amava. Paguei-lhes festins de sashimi nos melhores restaurantes. Ia às praias dos balneários de táxi. Centenas de reais em corridas.

A vida pode ser bem veloz, às vezes. E eu não entendo aqueles ricaços que, com tão mais dinheiro do que eu, levam vidas burguesas idiotas.

Um post deste pode confundir, vindo de alguém que acabou de chegar da rehab. Mas preste atenção no caráter melífluo da verdade; na manipulação inevitável de tempo, memórias e percepções; na dialética hegeliana; e na poesia de Paulinho da Viola.

Pois bem. Eu já estava cansado de engordar os egos dos mesmos e velhos amigos. Fui procurar novos; jogava pérolas aos porcos com o mesmo espírito com que Diógenes empunhava uma lanterna.

Nesse ínterim as drogas deixaram de ser coadjuvantes. E eu estava lendo a Bíblia. E lembrei da barganha de Abraão com Jeová: 10 justos para salvar milhares de pecadores. Um justo pra mim bastava, e acabei sabendo que esse justo existia. Estava atravessando o umbral da casa de Vítor naquele exato momento.

Seu nome era Cecílio, e era um anjo falhado. Toda a inteligência e sensibilidade do mundo aliadas ao mais renitente vício em drogas que eu já vi.

Ninguém dormiu na casa de Vítor naquela noite. Este porque ficou fazendo sexo tântrico com sua mulher, e eu e Cecílio porque ficamos, no outro quarto, bebendo, fumando e conversando até raiar o dia.

Mas eu não vou contar aqui a história toda. Fica para outro blog, ou até para um livro. Vou só dar um fast forward para um episódio em que um porco específico se engasga com a pérola a ele atirada, e quase morre.

Eu e Cecílio estávamos na porta da suíte do motel, despachando a putinha com a qual ele tentou (e conseguiu) estragar a noite.

Eu não tinha cash, então pedi ao taxista que voltasse às seis da manhã, quando eu poderia sacar e pagar.

Às seis eu estava cansadíssimo e no meio de uma briga horrível com Cecílio. Saio no táxi, fingindo estar grogue de sono. Saco todo o limite diário. Entrego, “dormindo”, o dinheiro todo e mais o cartão magnético ao taxista.

Voltamos ao motel. Chegando lá, sou “acordado” pelo rapaz, que me entrega apenas o cartão. Espero alguns segundos. Eu queria muito que a minha tese sobre a honestidade humana estivesse errada.

— Tudo certo, né, amigo? — finjo.

— Tudo, patrão.

Espero mais alguns segundos e falo, com a voz menos sonolenta e mais firme que consigo:

— Me dê meus oitocentos reais, por favor.

A luz fenece em seu rosto. Trêmulo, me devolve o dinheiro. Queria que eu pagasse as corridas, o que obviamente não fiz. Seguem-se ameaças mútuas de chamar a polícia, que resultam apenas em que cada um siga para o seu lado.

Entro chorando na suíte e vou direto para a piscina. Cecílio, que batia uma punheta para Mônica Mattos, pára e vai me ver. Me abraça.

Conto a história toda. Ao final, digo:

— Posso estar gastando o dinheiro que herdei da mamãe, mas nunca perderei sua verdadeira herança: a honestidade e a coragem.

Cecílio me beija, e eu paro aos poucos de chorar.

Uma estátua à beira da piscina sorri para mim.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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12 respostas para Money, money, money

  1. renmero disse:

    bah, continue postando textos assim. grande volta!

  2. Telma Christiane de Oliveira Dias disse:

    Putz Marquinhos, voltaste em grande estilo.
    Beijos!

  3. Silvia Faria disse:

    Não há arrenpedimento. Nunca! Foi! A vida foi.

  4. sub rosa disse:

    Marcus querido, vc tem o jeito certo do stumble/ing!:-)
    Parabéns,

  5. sub rosa disse:

    Oh! Marcus, querido:
    desculpe essa sua amiga cegueta, sorry:-(
    Perfeito seu jeito!
    Agora, colocar no texto, a barganha de Abraão, é golpe de mestre, a isso eu chamo de “estilo”.
    bjs

  6. Isabella disse:

    “Uma estátua à beira da piscina sorri para mim.”
    Uma maravilha. E, caramba, eu lia o Velho do Farol.

  7. jef cecim disse:

    po marquinho demais!!!! more more more…!!!

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