Inception e a felicidade

Leonardo DiCaprio e Marion Cotillard

Demorei a falar do filme por vários motivos, mas acho importante comentar um assunto específico que não foi debatido por outros blogueiros.

O Tiago ficou um pouco decepcionado, porque não viu grandes sacadas visuais ou surpresas para os olhos, como todos esperávamos.

Os irmãos Wachowski (em “Matrix” e “Speed Racer”) fizeram isso: deram-nos imagens que nunca tinham sido vistas antes. O filme de Christopher Nolan é discreto nesse aspecto, embora a cena dos prédios em ruínas no limbo, em frente à praia, seja uma das mais impactantes que eu já vi.

Os triunfos de Nolan estão no roteiro, e assim tem sido em várias ocasiões. Quem viu o trailer do “Cavaleiro das Trevas” poderia pensar numa mera combinação de explosões e cenas de ação, se não houvesse um roteiro brilhante e complexo.

Em Inception o que interessa é a história — que se bifurca em duas: a inserção de uma idéia na mente do magnata Robert Fischer (Cillian Murphy) e os traumas do comandante da operação, Cobb (Leonardo DiCaprio).

Uma coisa que eu não vi ninguém notar, e para mim ficou óbvia, é a analogia entre os sonhos construídos artificialmente e os paraísos artificiais das drogas.

O subsolo da casa de Yusuf (Dileep Rao), com vários “clientes” (ou pacientes) ligados permanentemente a máquinas de sonhar, tem uma grande similaridade, inclusive visual, com as casas de ópio do Oriente.

Filosofando um pouco, poderíamos dizer que o uso radical das drogas alucinógenas é a tentativa artificial de encontrar a felicidade suprema. Um drogado a esse nível não quer frustrações, tédio, reveses, nada que não seja o êxtase permanente. Não quer se conformar, não quer aceitar as limitações da vida.

O que Cobb e Mal (Marion Cotillard) tiveram nos muitos anos no limbo foi isso: uma vida sem contradições, sem envelhecimento, sem precisar do suor do rosto pra ganhar o pão, sem qualquer limite para a a vivência de seus desejos e emoções. Uma vida que todos gostariam de ter, mas ninguém tem.

Não é preciso acreditar que o suicídio de Mal seja o resultado de Cobb ter-lhe inoculado a idéia de que o limbo era a verdadeira realidade. Bastaria mesmo viver aqueles anos lá para rejeitar qualquer realidade menos perfeita que lhe fosse apresentada.

Ser feliz é o que todo mundo quer, e em “Transpotting” um dos personagens diz que um pico de heroína dá uma sensação de felicidade mil vezes melhor do que a melhor trepada que você deu na vida.

Em ambos os casos, a busca desmesurada pela felicidade pode cobrar um preço alto.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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4 respostas para Inception e a felicidade

  1. aline disse:

    eu tbm não gostei de inception. na verdade, não é que eu não gostei, mas achei ele superestimado. quem viu cidade dos sonhos não precisava muito do inception, eu penso.
    nem cheguei a pensar o filme do ponto de vista da busca desesperada pela felicidade, que é uma abordagem ótima. eu fiquei decepcionada mesmo com o enredo, com uma espécie de descompasso entre as ambições do filme e as motivações das personagens, e por isso sua leitura me mostra muito bem de onde vinha minha decepção.

    • Marcus Pessoa disse:

      Apesar das críticas favoráveis que li, não fui ver o filme esperando tudo isso que diziam. Me parecia algo como Matrix: boas cenas de ação pinceladas com um pouco de mensagem “filosófica”. Neste sentido não me decepcionou.

  2. dan disse:

    “Os irmãos Wachowski (em “Matrix” e “Speed Racer”) fizeram isso: deram-nos imagens que nunca tinham sido vistas antes.”

    Existem cenas.Quando a ariadne percebe que está num sonho pela 1ª vez;aquele momento onde as coisas vão “explodindo” ,foi uma cena “diferente”.

    “Filosofando um pouco, poderíamos dizer que o uso radical das drogas alucinógenas é a tentativa artificial de encontrar a felicidade suprema.”

    -Sim.Mas também pode ser a tentativa de fuga de uma rotina de sofrimentos.

    “O que Cobb e Mal (Marion Cotillard) tiveram nos muitos anos no limbo foi isso: uma vida sem contradições, sem envelhecimento, sem precisar…”

    -Eles envelheceram no limbo,não lembra da cena que mostra isso,quando eles estão de mãos dadas caminhando?Ou o próprio contratante,que mostra -se envelhecido pelo tempo que passou no limbo.

    “Não é preciso acreditar que o suicídio de Mal seja o resultado de Cobb ter-lhe inoculado a idéia de que o limbo era a verdadeira realidade…”

    -A idéia que ele plantou nela era a de que ela não vivia uma vida real,oque fez com que ela mesmo estando vivendo na realidade achasse que não estava.

    PS:A analogia com o efeito das drogas é até interessante; mas vc realmente assistiu ao filme?

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