Conversando com João

No princípio só havia um homem falando.

No princípio já havia um homem falando.

E aquilo que saía de sua boca, ele mesmo batizou de “palavra” (sendo que “batismo” ainda não era uma palavra).

Mas ele não lembra de quando falou pela primeira vez a palavra “palavra”, então, em termos práticos:

“No princípio já existia a Palavra”

Mas, de tanto falar, e nomear, e batizar, aquele homem chegou a coisas para as quais não conseguia dar um nome, e às vezes sequer conseguia se aproximar da idéia daquilo que, sim, existia.

Muitos séculos depois, deu um nome para essa coisa sem nome: o “indizível”.

E vários outros séculos adiante, finalmente encontrou um nome que julgou adequado pra essa coisa que não tinha nome até então: “Deus”.

O homem percebeu que havia um caminho a ser percorrido entre palavras e idéias, então concluiu que:

“A Palavra se dirigia a Deus”

…como um trem desgovernado, só porque o homem sabia que não se combinavam idéias sem repetições. Não é que fosse um clichê. Ele criou o que viria a ser um clichê, o que é diferente.

Esse homem sábio sabia de gregos e troianos, cristãos e muçulmanos, crentes e ateus. Era um pacifista. Queria que todos se entendessem. Sabemos hoje que sua proposta não foi muito bem aceita. Mas era um belo pensar. Pensar no quanto a ambiguidade pacifica.

“A Palavra era Deus”

Uma frase ambígua o suficiente para que ninguém tente ensinar algo de forma definitiva a partir dela. Porque cada um sabe o que pensar, o que interpretar. O homem é livre.

Livre para acreditar, livre para duvidar, livre para querer acreditar sem conseguir.

Mas tem uma coisa em relação à qual o homem não é livre. Não me interpretem errado. Não-livre é aquele que não se liberta de algo. Aquele homem primordial é uma ficção. O homem verdadeiro, ao falar, não se liberta de procurar um ouvinte.

Talvez seja isso que nos tenha feito sobreviver à nossa autodestrutividade.

(os três versos destacados são o início do Evangelho de João, na tradução moderna da Bíblia do Peregrino. O primeiro poema de João é uma espécie de refundação do mito da criação)

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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2 respostas para Conversando com João

  1. Isabella disse:

    Na época da faculdade, nenhum texto me marcou tanto como o “Da subjetividade na linguagem” de Benveniste. Em linhas gerais, Benveniste defende que o homem é um ser de linguagem, mas não o é sozinho (relação dialogica eu-tu) pois a linguagem exige e pressupõe o outro. E você colocou tão bem “o homem homem verdadeiro, ao falar, não se liberta de procurar um ouvinte”.
    Inspirador.

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