Não é uma mansarda

Minha casa é belo kitnet numa vila familiar, mas eu não deixo meu romantismo meio cômico e a chamo de “mansarda”.

Não há nada de mansarda, mas a solidão meio forçada a que me submeto, por questões de saúde, torna todas as palavras do escriba mais solenes e ridículas.

Eu tenho espaço, luz, um banheiro decente, um ventilador que não uso porque a temperatura é sempre amena, uma mesa para escrever a mão, uma geladeira e uma televisão. Poderia ser um manual para criar um desses neuróticos que querem viver uma vida “normal”.

É por isso que uso o termo “mansarda”. Mathieu Delarue não se sentiria menos infeliz só por estar num lugar higiênico, cheio de comida e com gente amigável nas casas ao redor. Provavelmente isso o deixasse pior do que já é.

Mas um pedaço daquela minha vida antiga — que, registre-se, era menos saudável, mas muito mais divertida — se imiscuiu na forma de um aparelhinho de MP3 totalmente alienígena, uma espécie de anti-iPod, onde chegar aonde você quer é sempre o caminho mais difícil.

Eu estava na casa do meu irmão, usando o computador dele, como um bom cidadão offline, e percebi que era inviável baixar naquele momento algumas das coletâneas que eu tenho no 4shared. Com 1 GB de espaço, nem pensar em amplas condições de discos.

Mas, sim, existia um disco. O disco novo do trio sueco Peter, Bjorn and John, que, como já comentei no Twitter, não é tão brilhante quanto os anteriores, mas é feito com tesão, alegria, e o deslocamento cognitivo habitual de todo músico absolutamente moderno.

O resultado é que eu estou aqui entre pilhas de livros, roupas para separar para a lavadeira, compras para arrumar na despesa, a TV ligada sem som, e o principal, na verdade o que me fez buscar o MP3: meus jovens vizinhos estão dando uma pequena festinha; a música não é boa, mas não está num nível insuportável. Não é pagode, é só um dance um pouco datado.

E eu queria dizer alguma coisa a eles, metaforicamente, dizendo essas coisas a vocês. De repente, isso já não é uma mansarda, e Mathieu que se foda.

Antigamente eu acreditava piamente em Max Martins — pra quem não sabe, um grande poeta paraense, que dizia que uma casa não é lugar de ficar, mas de ter de onde se ir.

Mas não existem ensinamentos que valham para todos. E a casa pode ser um lugar pra ter onde ir (o verso também é dele).

E quer saber? O MP3 tem interface em Klingon e eu não leio o nome das músicas, mas já reavaliei: o disco novo de P.B.J., “Gimme Some”, é bom pra caramba!

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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