Eu escolho Malba Tahan

São quatro da manhã e eu vou à janela do banheiro procurar a Estrela Dalva.

Ela nunca falha, é claro. Está sempre lá, um pouco acima da skyline cinzenta da cidade, dizendo que o dia está pra raiar.

Tem sido assim todos os dias. Obrigado a dormir cedo, tenho acordado religiosamente às quatro da manhã. É uma chateação esperar até as seis, quando poderei circular fora do quarto da internação.

Ultimamente tenho mais uma companheira astral: a lua crescente tem descido todo dia para juntar-se à Estrela Dalva.

Ontem se aproximaram tanto que formaram o símbolo do islamismo. E aí eu lembrei de Malba Tahan.

Ele era brasileiro, mas eu, criança, não sabia, e o imaginava como um sábio cheique árabe de barbas grisalhas.

Malba Tahan me fez amar o islamismo, ao mostrar uma Arábia iluminada pela razão e pelos valores da honestidade e da generosidade.

Parecia uma meritocracia da virtude. Os reis e ministros eram os mais sábios de todos, sempre transmitindo a seus interlocutores um alto conteúdo moral.

Alguns não sabem, mas Tahan escreveu, em menor número, histórias judias e cristãs. Usando as tradições de cada povo, trazia a mesma mensagem de amor e compaixão.

Temos agora aqueles que advogam guerras e dizem estarmos em um choque de civilizações. E temos esse brasileiro que mostrou três religiões irmãs nos enviando a mesmíssima mensagem de amor.

Nesse debate a minha decisão é óbvia. Eu escolho Malba Tahan.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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3 respostas para Eu escolho Malba Tahan

  1. Gerson Silva disse:

    Quando li o nome no post lembrei de um artigo que saiu no segundo volume da Revista de História da Biblioteca Nacional (Novembro 2010)- Especial sobre a História ou Historiografia da Ciência no Brasil. Quando li o artigo, imaginei ser ele parente da historiadora Laura de Melo e Souza, da qual estou revendo as obras de história colonial para um projeto de pesquisa nesse período. Mas não encontrei qualquer vínculo familiar entre a historiadora e o “Contador de história” que deu uma grande contribuição para o avança da ciência produzida no Brasil. Por isso, também, eu concordo com você. Boa escolha Marcus!

  2. Maysa disse:

    Marcus

    Gosto de escrever. Estou terminando uma história que contei/inventei, ontem, para minha neta Ana. E o Malba Tahan apareceu nela, hoje, sem pedir licença! rsrs foi muito bem recebido.
    Tal como vc aprendi a amar a cultura árabe através de uma coleção de livros do Professor de Matemática e excelente contador de histórias. Na verdade excelente mestre.
    Minha coleção era encadernada de azul marinho, letras douradas e cada volume tinha uma palmeira em baixo relevo, tb dourada.
    Final dos anos 50, creio.
    Um abraço. Visite meu blog.
    Maysa

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