Desenrolando

Desenrola

Sem contemporizações, e prestem atenção que eu só vou dizer uma vez. O clã dos Pessoa, sinto admitir, é uma gangue de retardados. Reuniu-se todo, ontem, em plena hora do almoço, para ir ao cinema! Ver um filme brasileiro! Uma comédia romântica! Este que vos escreve, seus irmãos, primo, esposa e priminho, enfrentando o mormaço infernal de Santa Maria do Grão.

Fomos ver Desenrola, uma história juvenil que parecia uma ótima opção para toda a família. A Rolling Stone disse que era um bom e esquecível filme. Eu apenas queria continuar vivendo a minha vidinha offline, e fico feliz porque Aldo, meu irmão gêmeo, sempre aceita meus convites para sair ao cinema — e paga tudo. Lembra muito, nesse particular, a dona Amparo, que fazia exatamente a mesma coisa.

Minha ignorância sobre o estado atual do cinema brasileiro é total. O último filme que saí de casa pra ver, acho, foi “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”. Sei que há uma safra recente de bons filmes juvenis, mas não os vi. Não tenho parâmetros. Só sei dizer que “Desenrola” foi uma surpresa tremenda. Um filme muitíssimo bem escrito, dirigido, atuado, com um ritmo de comédia totalmente distinto dos clichês televisivos, e um sentimento genuíno de feelgood, que não se quebra nem nos poucos momentos em que a grife “Globo Filmes” nos empurra seu estilo de nos fritar o cérebro.

Há muito de profissionalismo meio norte-americano aí, é claro, mas eu consegui me desgrudar um pouco do meu cinismo profissional e torcer sinceramente pelos que fizeram o filme, torcer para que este caminhasse suavemente até o fim sem me decepcionar gravemente — ao final salvaram-se todos, e há um twist tão brilhante que meu queixo caiu alguns centímetros.

O alto grau de retardamento da família Pessoa (eu incluído), por outro lado, produziu emoções contraditórias. Um de meus irmãos estava genuinamente comovido com a história, e quando tocou uma música antiga do Richie, que eu sabia que ele amava de paixão, esperei até vê-lo chorar copiosamente (o que não houve). Meu primo Francisco ia em outro diapasão, se aproximando da temática erótica do enredo pela via de comentários extremamente vulgares. Eu me sentia melancólico e meio deprimido por isso. Éramos os únicos no cinema, e em certa hora ficávamos a debater as cenas! Até que algum santo se lembrava de mandar todo mundo calar a boca. E havia no timing de comédia de vários momentos uma semelhança tão grande com o humor palhaço que Cecílio praticava em nossas longas conversas, que meu peito em certa hora se sentiu muito oprimido.

Não sou uma pessoa feelgood o suficiente para me emocionar com uma história juvenil, mas a minha empatia permite me aproximar dos sentimentos daqueles rapazes e moças atuando, da garra deles, do talento deles. E havia uma determinada locação num bar de samba na Lapa que eu tinha certeza de ter visitado em 2009, e isso era como se eu estivesse numa sessão de hipnotismo me lembrando de uma vida passada, talvez aquelas bobagens de secretário do faraó tal ou oleiro numa vila medieval européia, que os charlatões inventam.

Rapaz ama moça que não o ama, pois gosta de outro. Não precisa de nada mais do que isso pra contar uma grande história.

Quando eu contar a minha história, vou finalmente desatar esse nó que me prende a garganta há mais de um ano. Eu até já rio pensando nesse momento. Vai ser lindo.

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Sobre Marcus Pessoa

Alguém em busca de mais vida offline.
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2 respostas para Desenrolando

  1. Aqui é a Rosane, diretora do filme. Que bacana ler a sua crítica! Diria até que emocionante. O boca a boca é fundamental, e volta e meia eu recebo um email de alguém dizendo que achava que não ia curtir, mas acabou entrando no filme. São essas as pessoas mais difíceis de “arrastar” pro cinema. Obrigada memso. Beijos, Rosane Svartman

    • Marcus Pessoa disse:

      Uau. Que honra, Rosane, receber seu comentário.

      Tenho certeza que o filme pode crescer no boca a boca, apesar da estréia não muito alvissareira em termos comerciais. Qualquer jovem sensível vai querer arrastar todos os seus amigos pro cinema para vê-lo.

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