Por ele mesmo

(republicado) “as pessoas vêm me procurar, ficam falando, torrando a paciência: os futuros rabinos, os revolucionários com seus fuzis, o FBI, as puras, as poetisas, os jovens poetas da Estadual da Califórnia, um profe de Loyola a caminho de Michigan, outro da Universidade da Cal. em Berkeley, um terceiro que mora em Riverside, 3 ou 4 rapazes com o pé na estrada, simples vagabundos com livros de Bukowski armazenados no crânio… houve tempo em que achei que essa turma toda ia invadir e acabar com a minha bela e preciosa vidinha, mas depois vi que tenho uma sorte danada, pois cada homem ou mulher me trouxe e deixou muita coisa, e não preciso mais me sentir que nem Jaffers, protegido por um muro de pedra, e também posso me considerar felizardo, porque a pouca fama que tenho é em grande parte secreta e tranquila, e dificilmente virei a ser um Henry Miller com gente acampada no gramado em frente de casa; os deuses foram generosos comigo, me deixaram vivo e inteiro, sempre ativo, anotando tudo, observando, sentindo a bondade das pessoas decentes, sentindo o milagre correndo pelo braço acima feito rato maluco, uma vida dessas, a mim concedida na idade de 48 anos, mesmo que o dia de amanhã seja uma incógnita, é o mais doce dos sonhos possíveis”.

Charles Bukowski

Fabulário Geral do Delírio Cotidiano, L&PM, p. 139
Tradução de Milton Persson

Post publicado originalmente em outubro de 2005.

Sinais de vida inteligente… na Terra

(republicado) O caso dos círculos nos campos de trigo da Inglaterra é hoje bastante conhecido. Todo mundo já ouviu falar nos estranhos desenhos, com formas complexas e que só podem ser vistas de cima. Talvez por serem muito numerosos — na casa dos milhares! — e não terem, a princípio, qualquer explicação, atiçaram a imaginação de muita gente. Alguns os consideram a única evidência física inequívoca da presença de visitantes extraterrestres em nosso planeta.

A alta complexidade dos desenhos e o fato de serem construídos literalmente “da noite para o dia” estimulou essa crença na origem extraterrestre do fenômeno. Chegou-se a falar na existência de radiação nos locais, além de estranhas alterações nas plantas. E os primeiros círculos apareceram próximos a locais de significado místico, como o monumento do Stonehenge.

Círculo em campo de trigo

O que muita gente não sabe é que esse “mistério” já é um segredo de polichinelo há quase 15 anos, desde que os artistas ingleses Doug Bower e Dave Chorley confessaram ser os autores de centenas de círculos em diversas plantações de cereais do país, desde os anos 70. Chegaram a deixar suas iniciais (“DD”) em alguns deles.

Após a revelação, foram acusados de fazer parte de uma fraude destinada a esconder a verdadeira origem dos círculos, mas o fato é que é mais do que plausível que os desenhos tenham sido feitos por seres humanos.

Se foram realmente eles que fizeram os primeiros círculos, não importa: a cada ano aumenta o número de episódios, o que quer dizer mais gente aderindo ao que está sendo chamado de um grande fenômeno artístico-cultural. A complexidade dos desenhos também é maior a cada ano, pelo aprimoramento do know-how de sua fabricação.

Círculo em campo de trigo

Alguns criadores de círculos agem abertamente, como os Circle Makers, que mostram didaticamente como criar desenhos incrivelmente elaborados em poucas horas.

O assunto voltou à moda com o filme de M. Night Shyamalan, Sinais, que, como bom produto hollywoodiano, foi procurar uma explicação fantasiosa para o fenômeno. O problema é que algumas pessoas parecem não distinguir a ficção da realidade…

Não vou ficar aqui debatendo a autoria dos círculos. Isso é o mesmo que discutir com criacionistas — dá um trabalho danado e você sente que perdeu seu tempo. Mas numa coisa eu concordo com os teóricos da conspiração: esses desenhos são resultado de vida inteligente sim! Mas na Terra…

Círculo em campo de trigo

Essas ações de seres humanos semeando a dúvida e questionando a credulidade das pessoas são, claramente, uma forma de arte contemporânea. Ao contrário de alguns de seus congêneres, que põem vacas em fatias nos museus, ou fazem esculturas em sangue congelado, estes artistas não só cumprem seu papel de intervir criticamente na realidade como também se preocupam com a beleza de seu trabalho — o que, estranhamente, há algum tempo não é considerado algo essencial na arte.

E a “intervenção” tem bastante humor também: quando alguns estudiosos do fenômeno propunham explicações esdrúxulas como a de um “vórtice plasmático eletromagnético” (!?!), os criadores prontamente faziam outro círculo que desmontava a explicação! Que bom que ainda existem exemplos de arte contemporânea que não são só masturbação intelectual…

(publicado originalmente em abril de 2005)