A rosa branca na calçada

Naquele dia eu tinha ido ver “Uma Mulher contra Hitler” no Olympia, com uma amiga querida. Eu sabia que era um bom filme, mas não estava preparado para a força avassaladora dele.

Houve uma grande batalha moral e filosófica no século XX, e ela foi vencida metaforicamente por Sophie Scholl naquela salinha em que enfrentou o inspetor Held, a ponto de deixá-lo literalmente sem ter o que dizer.

Na época ninguém sabia dessa pequena vitória. Hoje sabemos.

Eu saí depois com minha amiga e ficamos andando nas ruas conversando sobre liberdade, que era o único assunto pertinente depois de ver esse filme.

Quando eu fui pra casa e soltei os gatos, Noel se aproveitou de novo e pulou para o jardim do vizinho.

Ele sempre faz isso. Virou rotina, quase todos os dias. O jardim do vizinho é praticamente o Éden dos gatos, tem uma cerca viva que eu acho que eles ficariam lá todos os dias da sua vida.

Mas não tem como ele voltar, então ele sempre fica na grade fechada miando pra eu colocar ele pra dentro de novo. Eu abro e xingo ele de tudo o que é nome, mas não adianta. Claro que ele entende, mas não liga.

Pensei no que Sophie faria nessa situação.

Por volta de uma da madrugada eu abri o portão da vila e deixei ele sair. Saí com ele, fechei o portão a chave e me sentei na calçada. Ele ficou andando pra tudo que é lado, confiante que eu estava lá. Apesar de tudo, ele confia em mim.

O que fazer por alguém que a gente ama, a não ser dar-lhe o que ele quer?

Noel, assim como todos os gatos, assim como todos os seres humanos, assim como Sophie Scholl, anseia por liberdade. Mais do que isso. Anseia pela liberdade da aventura, pelo desconhecido, pelas alturas, por tudo o que está longe e é um desafio para alcançar.

Quem sou eu pra dizer: “fique aqui, em segurança, fique comigo pra toda a vida, e seja menos você”?

Não tenho como dizer isso pra essa criatura que eu amo tanto.

O nome da gangue pacifista de Sophie era Rosa Branca. Metaforicamente, havia uma rosa branca saindo do meio das pedras de lioz da Cidade Velha.

Mas Noel ficou cansado, quis entrar, e as minhas divagações filosóficas foram abreviadas pelas necessidades comezinhas da vida.

Como sempre são. Como sempre serão.

Publicado por

Marcus P

Don't believe the hype.

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