Pra ser feliz em toda parte

Eu achava que ia perder o show do Violeta de Outono, desde sempre minha banda brasileira preferida. Tive uma insônia terrível e fui dormir depois de meio dia. Por um milagre acordei no susto às 20 horas, e dava tempo de ir. Fui andando, porque o show era no Hangar, que era perto da minha antiga casa.

Fui cantarolando “Em Toda Parte” que é a minha música preferida deles. “Quando a noite espelha a terra em transe, um som invade a face do planeta”. Eles não tocavam mais essa música ao vivo, e metade do show em geral era de covers de bandas dos anos 60 e 70. Eu soube disso porque fui no site Setlist.fm olhar o repertório dos últimos meses.

Era o Festival Se Rasgum de 2014, e acho que dispensa apresentações pra quem é ligado em música né? Um dos festivais mais criativos do país, reconhecido no centro sul como um celeiro de novas ideias.

Tenho que tirar o chapéu para os moços da organização, com os quais eu já briguei em porta de boate, hehehe. Eu os achava uns metidos, que se achavam demais para o que faziam. Mas, ao contrário de mim (que organizei algumas festas nos anos 90, mas ficou nisso), eles eram operosos e foram construindo aos poucos a marca das festas Dançum Se Rasgum, até chegar ao festival, que este ano (2020) está estreando em São Paulo.

Nesse mesmo dia do Violeta teve o Jaloo, que na época era apenas um DJ de quem todo mundo tava falando, e que fez um show sozinho tocando teclado e com um casal de dançarinos. Fiquei particularmente tocado quando ele anunciou que naquela semana a grande banda eletrônica The Knife estava se separando, e tocou uma cover tecnobrega (em português) de “Pass This On”, que ficou linda.

A noite fechou com a ótima banda de garagem americana Bass Drum of Death, e um show épico de Arnaldo Antunes, que revisitou toda a sua carreira e inclusive seus clássicos dos Titãs.

Mas claro que eu e todos (todos) os meus melhores amigos estávamos lá pra ver o Violeta né.

Eu na muvuca

Quando eu cheguei ainda tinha pouca gente, e quando os músicos foram ligar os instrumentos tinha tipo um fã clube de gente entusiasmada que ficou conversando com o Fábio Golfetti, líder da banda e único remanescente da formação original. Eu só fiquei olhando. Claro que quando começou o show eu fui para o gargarejo.

Em resumo, fizeram um show curto (10 músicas), absolutamente perfeito. Ao contrário do esperado, quase todo o repertório veio dos dois primeiros discos, aqueles que todos nós ouvimos na época, os dois igualmente maravilhosos.

Eu tava sóbrio e achava que, ao contrário de sempre, não iria chorar. Qual o quê! Na segunda música (“Dia Eterno”), no solo eu senti o meu coração ser arpoado pelo som lindo, lindíssimo da guitarra do Fábio.

Eu nunca vou entender quem se contenta com a versão do disco e não enfrenta o perrengue de ir pra um show lotado. Não existe nada como ver as músicas que você ama reinterpretadas ao vivo, com a gana dos músicos mostrando o que sabem para os fãs.

Não acreditei quando começou “Sombras Flutuantes”, outra música que eles quase não tocam. Eles fizeram um show pra nós que São Paulo quase não via mais. E no meio da música o Fábio pôs a guitarra no chão e tocou com slide e efeitos de pedal, e todos nós esticamos o pescoço pra ver ele ajoelhado como um monge louvando a musa.

Terminaram com as duas músicas mais icônicas de cada um dos dois primeiros disco, “Outono” e “Vênus”. Quando Fábio se despedia, o grito de “mais um” foi tão forte que ele olhou para o rapaz da produção, e foi autorizado a dar o bis (coisa que não existe em festival).

Qual ele escolheu pra encerrar? “Em Toda Parte”. E pela segunda vez as lágrimas vieram. Eu me lembrei de quando comprei o vinil e ouvi pela primeira vez. Eu tinha certeza que uma banda que conseguiu fazer dois discos lindos desses iria durar pra sempre.

Existem dias mais ou menos, existem dias bons, e existem dias perfeitos. Naquele dia eu olhava no rosto dos amigos, e todos estavam inebriados de felicidade.

Publicado por

Marcus P

Don't believe the hype.

2 comentários em “Pra ser feliz em toda parte”

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