Sem a música, a vida seria um erro

A frase é de Nietzsche (aforismo 33 do Crepúsculo dos Ídolos). Eu tava refletindo sobre como um amor exagerado pela música me persegue há muito tempo, e na sua trajetória.

Quando eu era criança, nos anos 70, o Brasil estava vivendo talvez a sua era de ouro musical. As gravadoras chamavam os melhores artistas e davam-lhes liberdade para criar, e suas criações conseguiam grande sucesso de público.

Hoje é difícil acreditar que um disco difícil e reflexivo de Belchior (“Alucinação”) tenha vendido 500 mil cópias, mas sim, era esse o star system da música brasileira: Caetano Veloso, Elis Regina, Gilberto Gil, Chico Buarque, Rita Lee, Gal Costa, Tim Maia, Roberto Carlos, Maria Bethânia. Os melhores, fazendo meus melhores discos.

A seleção acima não é trivial. Eram os artistas que a mamãe gostava, e tinha discos, e ouvia o tempo todo. Eu cresci os ouvindo. Além das sambistas, Beth Carvalho, Alcione, Clara Nunes. Alguns eu tive que descobrir muito depois, como Jorge Ben, pelo singelo fato de que não estavam na discoteca dela.

Há poucos anos atrás, quando virei DJ de bar, eu colocava os rocks que as pessoas gostavam, mas quando os frequentadores começaram a pedir música brasileira, eu não tive muita dificuldade de fazer uma enorme playlist. Foi só relembrar os discos da mamãe.

Não havia nessa época um gosto autônomo, meu. Com certeza tive alguns discos meus, mas não lembro mais quais eram. Lembro só de um, uma coletânea dos Rolling Stones que tinha uma música que até hoje eu amo muito: “As Tears Go By”.

Então “As Tears Go By” talvez seja a primeira música “minha” mesmo. E o primeiro disco que eu e o André compramos de forma consciente foi “Voo de Coração”, do Ritchie, que tinha o sucesso “Menina Veneno” mas também outras músicas ótimas.

O Ritchie veio junto de uma grande onda: o rock nacional. Foi muito excitante. Lembro muito bem de ver no Fantástico a estreia do videoclipe de “Você Não Soube Me Amar”, da Blitz, que pode ser considerado o marco inaugural.

Na verdade foram duas ondas: a primeira, mais ingênua e lúdica, com Blitz, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Barão Vermelho. E a segunda, por volta de 1985, com as bandas mais “sérias”, RPM, Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude.

O estouro do rock brasileiro mudou pra sempre o mercado discográfico nacional. Ao mesmo tempo, estouraram nas rádios duas grandes bandas estrangeiras: The Cure e The Smiths. Então todos fomos capturados pelo rock tanto em inglês como em português.

Contei aqui sobre meu amor pela Legião Urbana. E no antigo blog sobre como o amor pela música unia nossa turma de amigos, numa época em que, bem, você tinha que ter o disco pra ouvir a música:

Nessa época de vinil e falta de grana, toda vez que alguém comprava um disco novo da Stiletto era motivo de festa. Os bolachões eram “propriedade coletiva”, e o que mais acontecia era a gente ir na casa de um amigo se achando no direito de exigir que disco tocar. “Toca aquele”.

Em tempos de YouTube e Spotify, é difícil imaginar o quanto a falta de grana nos impedia o acesso à música.

Eu comprava sempre a revista Bizz, que me deixava com uma enorme vontade de ouvir um monte de artistas, mas tinha que escolher cuidadosamente o que comprar, porque só havia dinheiro para poucos discos.

Lembro muito bem uma vez que eu visitei um colega de faculdade abonado, e no quarto dele tinha centenas de vinis, muita coisa que eu só ouvia falar e queria muito ouvir, mas não podia. Naquele dia eu me senti muito mal, me senti pobre e limitado.

Depois, quando eu fiquei melhor de grana, coincidiu de eu ir morar só num apartamento pequeno e comprei uma aparelho de som minúsculo e elegante que… só tocava CD. Chamei meus amigos pra uma festa na casa da mamãe e no final pedi que cada um deles escolhesse 5 vinis e levasse pra casa.

Fiquei só com os únicos CDs que eu tinha: “Nevermind” do Nirvana e “Blood Sugar Sex Magik” dos Red Hot Chili Peppers. Mas era a época da farra do dólar do Fernando Henrique e as lojas viviam cheias de lindos CDs importados. Comprei um monte.

Claro que a internet mudou tudo.

Já havia arquivos MP3, eu já tinha gravador de CD pra copiar os dos amigos, já dava pra baixar algumas músicas na net (a primeira foi “Everlong” dos Foo Fighters)… mas ainda não tinha o Napster.

O Napster foi um conceito completamente novo. Compartilhar seus próprios arquivos, criando uma grande fonoteca mundial, era algo que ninguém ainda tinha pensado.

Foi muito emocionante a primeira vez que eu abri o Napster. Eu fiz uma busca pelas bandas mais difíceis, aquelas que eu não encontrava em lugar nenhum, e tinha um monte de músicas de todas elas! Pensei: “agora abriu a porteira, e não fecha mais”. E eu estava certo.

Desapeguei completamente dos discos físicos. Hoje eu não tenho um sequer. Mas eu tinha uma enorme coleção de arquivos MP3, e é um fato da modernidade amar um disco que eu nunca toquei fisicamente.

Nunca tive o menor problema com a pirataria. Mas achava, ainda em 1999, que deveria haver um jeito de pagar um preço justo pra ter a música que a gente queria. Sim, o que hoje é o Spotify, eu via como um sonho quase impossível.

A música me deixa num estado alterado. Nunca tive walkman na infância e na juventude, então, já adulto, cheio de MP3 e com celulares com fone de ouvido, descobri tardiamente um novo mundo. A vida com música parecia um videoclipe constante, e eu me sentia melhor, mais forte, capaz de abraçar o mundo com as pernas.

Muito da minha auto estima de hoje se deve aos meus momentos de reflexão ouvindo música na rua. A música me chamava atenção para o fato de que há beleza em tudo, e às vezes a gente não repara.

Quando uma banda que eu amo lança uma música nova e ela é linda e me emociona, eu choro. Quando eu vou procurar a banda tocando a música ao vivo e eu percebo que não é truque de estúdio, que a banda se doa completamente no palco, eu choro. Quando a plateia do show responde com a mesma emoção que eu sinto, eu choro também.

Já passei muitas noites bêbadas com meu amigo JP, vendo vídeos musicais de todas as procedências, e nos emocionando com eles. Mas eu sequer preciso de álcool pra me sentir assim. Eu sinto essas coisas totalmente sóbrio.

Quando eu disse pra JP que eu chorava todos os dias vendo vídeos de shows no YouTube, completamente sóbrio, ele respondeu: “Marquinho, tu é doido”.

Talvez seja uma forma de loucura, mas eu respeito muito minhas lágrimas, e não sei ser de outro jeito.