Oscar, Vik Muniz e Banksy

Eu tinha acabado de chegar da rua e liguei o micro do meu irmão. A timeline do Twitter já estava piando os primeiros pitacos e informações sobre os indicados ao Oscar.

Portais brasileiros com notícias cheias de erros. Vou então ao Oscar.com ver a lista completa. Lemos com atenção as indicações em todas as categorias, eu e meu irmão, e quando chega a de documentário, ele me avisa que “Waste Land” (que depois eu fui saber que se chamava em português “Lixo Extraordinário”) é um documentário brasileiro sobre nosso artista plástico mais conhecido no mercado internacional, Vik Muniz — que fez, aliás, a abertura da novela as 9 que acabou de terminar, “Passione”.

Vou imediatamente piar a informação para a timeline, deplorando que até aquela ocasião (quase meia hora depois do anúncio) os portais brasileiros ainda não tinham destacado isso em manchetes. E não é a primeira vez que acontece. A imprensa fica olhando só para o Oscar de filme estrangeiro e esquece às vezes das categorias de doc e animação, que já renderam indicações para brazucas.

Vi uma exposição-monstro de Vik Muniz no MASP, em 2009, totalmente encantado. Mas o Tiago avisou que o doc em si é fraco e que não está à altura do trabalho de Vik.

O que é  interessante é que o franco favorito ao Oscar de doc em longa metragem é obra de outro artista plástico instigante e pop ao mesmo tempo, Banksy, cujo “Exit Through the Gift Shop” eu estou doidinho pra ver. Pelo que sei, o filme subverte totalmente o gênero, pois havia um cineasta tentando documentar o misterioso Banksy (que não mostra o rosto), e este vira a mesa a passa a documentar o outro cineasta tentando encontrá-lo.

Não sei ainda como a história acaba, mas deu água na boca. Banksy faz arte contemporânea que não é chata, que não é hermética nem fácil demais, e que tem uma mensagem política que passa longe do panfletarismo.

Acho que todos já viram a abertura que ele fez para os Simpsons, não? Prova atualíssima de que o “suporte da obra de arte” já foi desta para melhor. Oremos!

Desenrolando

Desenrola

Sem contemporizações, e prestem atenção que eu só vou dizer uma vez. O clã dos Pessoa, sinto admitir, é uma gangue de retardados. Reuniu-se todo, ontem, em plena hora do almoço, para ir ao cinema! Ver um filme brasileiro! Uma comédia romântica! Este que vos escreve, seus irmãos, primo, esposa e priminho, enfrentando o mormaço infernal de Santa Maria do Grão.

Fomos ver Desenrola, uma história juvenil que parecia uma ótima opção para toda a família. A Rolling Stone disse que era um bom e esquecível filme. Eu apenas queria continuar vivendo a minha vidinha offline, e fico feliz porque Aldo, meu irmão gêmeo, sempre aceita meus convites para sair ao cinema — e paga tudo. Lembra muito, nesse particular, a dona Amparo, que fazia exatamente a mesma coisa.

Minha ignorância sobre o estado atual do cinema brasileiro é total. O último filme que saí de casa pra ver, acho, foi “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”. Sei que há uma safra recente de bons filmes juvenis, mas não os vi. Não tenho parâmetros. Só sei dizer que “Desenrola” foi uma surpresa tremenda. Um filme muitíssimo bem escrito, dirigido, atuado, com um ritmo de comédia totalmente distinto dos clichês televisivos, e um sentimento genuíno de feelgood, que não se quebra nem nos poucos momentos em que a grife “Globo Filmes” nos empurra seu estilo de nos fritar o cérebro.

Há muito de profissionalismo meio norte-americano aí, é claro, mas eu consegui me desgrudar um pouco do meu cinismo profissional e torcer sinceramente pelos que fizeram o filme, torcer para que este caminhasse suavemente até o fim sem me decepcionar gravemente — ao final salvaram-se todos, e há um twist tão brilhante que meu queixo caiu alguns centímetros.

O alto grau de retardamento da família Pessoa (eu incluído), por outro lado, produziu emoções contraditórias. Um de meus irmãos estava genuinamente comovido com a história, e quando tocou uma música antiga do Richie, que eu sabia que ele amava de paixão, esperei até vê-lo chorar copiosamente (o que não houve). Meu primo Francisco ia em outro diapasão, se aproximando da temática erótica do enredo pela via de comentários extremamente vulgares. Eu me sentia melancólico e meio deprimido por isso. Éramos os únicos no cinema, e em certa hora ficávamos a debater as cenas! Até que algum santo se lembrava de mandar todo mundo calar a boca. E havia no timing de comédia de vários momentos uma semelhança tão grande com o humor palhaço que Cecílio praticava em nossas longas conversas, que meu peito em certa hora se sentiu muito oprimido.

Não sou uma pessoa feelgood o suficiente para me emocionar com uma história juvenil, mas a minha empatia permite me aproximar dos sentimentos daqueles rapazes e moças atuando, da garra deles, do talento deles. E havia uma determinada locação num bar de samba na Lapa que eu tinha certeza de ter visitado em 2009, e isso era como se eu estivesse numa sessão de hipnotismo me lembrando de uma vida passada, talvez aquelas bobagens de secretário do faraó tal ou oleiro numa vila medieval européia, que os charlatões inventam.

Rapaz ama moça que não o ama, pois gosta de outro. Não precisa de nada mais do que isso pra contar uma grande história.

Quando eu contar a minha história, vou finalmente desatar esse nó que me prende a garganta há mais de um ano. Eu até já rio pensando nesse momento. Vai ser lindo.

Harvey Dent e Duas Caras são a mesma pessoa

Harvey Dent

As breaking news atropelaram esse post, escrito há vários dias. A escolha de Anne Hathaway para o papel de Selina Kyle (aka Mulher Gato) no terceiro bat-filme foi seguida por um suspiro planetário. Não se sabe se pela surpresa estonteante ou por outros “atributos” dessa fantástica atriz. Também não sabemos se Selina ajudará Batman a ir para o fundo do poço ou tentará tirá-lo de lá. Tantas perguntas, tantos meses de filmagens…

Mas eu ia dizer uma coisa totalmente diferente. Que revi há pouco o segundo filme, e ficou mais uma vez clara a importância da presença de Harvey Dent (Aaron Eckhart) para manter a história num tom adulto quase incompatível com o modelo atual de blockbuster hollywoodiano.

A abordagem que Christopher Nolan deu para esse personagem clássico da mitologia morcegóvica surpreendeu pela quebra da dicotomia “Dr. Jekkil / Mr. Hyde” apresentada em outras épocas. Harvey Dent não é o médico e Duas Caras não é o louco. Ambos são a mesma pessoa.

No primeiro episódio da graphic novel homônima de Frank Miller, uma dupla de renomados cientistas “curou” Harvey Dent. Um cirurgião plástico restaurou a metade destruída de seu rosto, e um psiquiatra garantiu ter contido a dupla personalidade do ex-promotor.

A pedido da imprensa, Harvey mostra a moeda que tem no bolso, e ela está sem nenhuma marca em ambos os lados.

É claro que não ia dar certo.

Batman encontra mais tarde a moeda riscada nas duas faces, e quando captura Duas Caras (que a essa altura já tinha voltado ao crime), este diz que a dualidade deixou de existir, e que bastava olhar para dentro de si mesmo e ver como ele era de verdade.

Frank Miller desenha, então, Dent com os dois lados do rosto desfigurados. Numa fantástica sequência de quadros, Batman também olha para dentro de si mesmo e vê o morcego que o “possuiu” na infância, o qual lhe obriga a viver a vida quase suicida que leva.

Nolan  não chega a ser tão icônico em seu filme, mas também mostra um Duas Caras que rechaça a dualidade loucura / lucidez. No filme, Harvey Dent já tem o apelido de Duas Caras, já joga a moeda para tomar uma decisão, e já é um tanto violento, bem antes de ter o rosto esquerdo destruído na explosão de gasolina.

O fato mais importante para a mudança do personagem não foi a sua mutilação, mas o assassinato de Rachel (Maggie Gyllenhaal). O “sistema” em que Dent tanto acreditava mostrou-se falho. Mas Duas Caras não deixa de acreditar na Justiça, apenas quer fazê-la do seu jeito. Um jeito muito peculiar, é verdade.

Todos sabemos como isso terminou. E Batman que se cuide. Ele também anda meio alterado, precisando de uns ansiolíticos. Lucius Fox se mandou antes que aquele Bruce Wayne salvacionista e autoritário da graphic novel de Miller desse as caras. Mas na terceira aventura da trilogia, literalmente tudo pode acontecer.

Inception e a felicidade

Leonardo DiCaprio e Marion Cotillard

Demorei a falar do filme por vários motivos, mas acho importante comentar um assunto específico que não foi debatido por outros blogueiros.

O Tiago ficou um pouco decepcionado, porque não viu grandes sacadas visuais ou surpresas para os olhos, como todos esperávamos.

Os irmãos Wachowski (em “Matrix” e “Speed Racer”) fizeram isso: deram-nos imagens que nunca tinham sido vistas antes. O filme de Christopher Nolan é discreto nesse aspecto, embora a cena dos prédios em ruínas no limbo, em frente à praia, seja uma das mais impactantes que eu já vi.

Os triunfos de Nolan estão no roteiro, e assim tem sido em várias ocasiões. Quem viu o trailer do “Cavaleiro das Trevas” poderia pensar numa mera combinação de explosões e cenas de ação, se não houvesse um roteiro brilhante e complexo.

Em Inception o que interessa é a história — que se bifurca em duas: a inserção de uma idéia na mente do magnata Robert Fischer (Cillian Murphy) e os traumas do comandante da operação, Cobb (Leonardo DiCaprio).

Uma coisa que eu não vi ninguém notar, e para mim ficou óbvia, é a analogia entre os sonhos construídos artificialmente e os paraísos artificiais das drogas.

O subsolo da casa de Yusuf (Dileep Rao), com vários “clientes” (ou pacientes) ligados permanentemente a máquinas de sonhar, tem uma grande similaridade, inclusive visual, com as casas de ópio do Oriente.

Filosofando um pouco, poderíamos dizer que o uso radical das drogas alucinógenas é a tentativa artificial de encontrar a felicidade suprema. Um drogado a esse nível não quer frustrações, tédio, reveses, nada que não seja o êxtase permanente. Não quer se conformar, não quer aceitar as limitações da vida.

O que Cobb e Mal (Marion Cotillard) tiveram nos muitos anos no limbo foi isso: uma vida sem contradições, sem envelhecimento, sem precisar do suor do rosto pra ganhar o pão, sem qualquer limite para a a vivência de seus desejos e emoções. Uma vida que todos gostariam de ter, mas ninguém tem.

Não é preciso acreditar que o suicídio de Mal seja o resultado de Cobb ter-lhe inoculado a idéia de que o limbo era a verdadeira realidade. Bastaria mesmo viver aqueles anos lá para rejeitar qualquer realidade menos perfeita que lhe fosse apresentada.

Ser feliz é o que todo mundo quer, e em “Transpotting” um dos personagens diz que um pico de heroína dá uma sensação de felicidade mil vezes melhor do que a melhor trepada que você deu na vida.

Em ambos os casos, a busca desmesurada pela felicidade pode cobrar um preço alto.