Planet Hemp – Samba Makossa

(publicado originalmente em meu site pessoal MuzikaZipada, em 1º de agosto de 1999)

“Samba Makossa” foi lançada originalmente no primeiro disco de Chico Science e Nação Zumbi, “Da Lama ao Caos”. Após a morte de Chico, o Planet Hemp fez essa cover, apresentada pela primeira vez no Heineken Concerts de 1997. A versão saiu depois não em disco do Planet, mas em “CSNZ”, primeiro disco da Nação Zumbi sem seu líder.

Em sua curta carreira, Chico Science apontou caminhos interessantes para o rock brasileiro, e também tocou em alguns nervos expostos do imaginário nacional, ao chutar para o alto a ideia de nação cordial destinada a um grande futuro no panorama mundial.

A sua temática é outra: um país afundado até os joelhos na lama, lutando ingloriamente por uma identidade própria, e também com cada um lutando por sua sobrevivência a qualquer preço, num caldo de cultura parecido com o mangue tão falado.

Ao recusar as parabólicas convencionais e preferir enterrar a sua na lama, Chico estava dando uma pista que o identifica com a antropofagia de Oswald de Andrade: não podemos recusar o que vem de fora, mas não podemos aceitar do jeito que vem, que isso ainda vai nos matar.

O Brasil é um lugar absurdo. Onde Sérgios Nayas podem ficar passeando à vontade na ponte aérea Rio / Miami, mas o Planet Hemp pode ser preso por dizer que fuma maconha. O Brasil é um país mestiço em que parte da elite se imagina branca e europeia. E o Brasil também é um país europeu que quer ser eternamente visto como aquele primo exótico, pouco sério, habitado pelos “mulatos inzoneiros” imortalizados por Ari Barroso.

Jorge Luís Borges, argentino mas britânico de coração, disse certa vez que a América Latina não existe. O Brasil é parte da América Latina e… desculpem, mas o Brasil também não existe. É uma ficção, criada para que não nos tornemos uma nação de verdade. Para justificar um passado de opressão e alienação. Somos um povo alegre porque nos esquecemos dos motivos para sermos tristes…

Nick Cave, australiano de nascimento, morou alguns meses no Brasil e disse que não entendia como as pessoas fingiam tanto ser alegres. Perguntavam para ele “como alguém tão triste podia viver no Brasil”, e ele ria, respondendo que o Brasil era o país mais triste que ele tinha conhecido!

Chico Science não era exatamente um compositor genial, mas tinha a percepção exata do zeitgeist tupiniquim, uma visão adiantada sobre o que, enfim, esse país precisa. Não de uma carnavalização eterna, mas da percepção direta de seu espírito trágico, de sua história de pilhagem e destruição, e de suas outras possibilidades enquanto nação jovem e pobre.

Vejam essa bela música: o malungo que pega a bronca por ter chegado atrasado à roda de samba não tem nada a ver com o mulato inzoneiro daquela outra (“Aquarela do Brasil”). Ser do samba não é um traço de cordialidade ou alegria… na verdade, tocar o pandeiro é manter-se inteiro, como diz a letra. Manter-se sendo o que é, sob pena de morrer, ou pior, se desgraçar. Só assim é possível entender o samba e toda a resistência dos negros para manter suas raízes, apesar da repressão dos brancos.

Chico queria pensar essas coisas todas, e talvez por isso tenha batizado sua banda de “nação”. E não qualquer nação, mas a Nação Zumbi, signo dessa tal história de pilhagens, mistureba de sons só possível com um olhar antropofágico, e além do mais, a melhor seção rítmica do planeta.

Quando ouvi pela primeira vez a versão do Planet, na TV Cultura, tive a mesma sensação que me assaltou quando ouvi Marisa Monte cantando “Comida” dos Titãs. A sensação de existir um mundo dentro da música brasileira que eu não conheço, que às vezes só vem à tona quando um artista generoso nos dá uma nova visão sobre uma canção.

Assim como “Comida”, que era uma brincadeira com poesia concreta, se transformou num verdadeiro hino na versão jazz-maracatu de Marisa, “Samba Makossa”, que ficava meio perdida entre as pérolas da Nação Zumbi, se afirmou agora o que verdadeiramente é: um clássico da música brasileira. E com direito a trechos do “Monólogo ao Pé de Ouvido”, o manifesto dos novos tempos que estavam por vir.


(sim, o blog voltou. Nem que seja apenas para republicar textos antigos e que merecem ser relidos)

Publique-se a lenda

Belém, 1986.

A Legião Urbana era a maior banda de rock do Brasil. Seu segundo disco enfileirava hits nas rádios: “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica”, “Quase Sem Querer”, “Índios”… eu, adolescente sem grana, aguardava ansiosamente o final do mês, quando receberia o dinheiro de umas aulas particulares e poderia finalmente comprar o disco. Realizado o desejo, o disco tocava tanto na vitrola, e sempre no volume máximo (como mandava a etiqueta da capa), que mamãe estava ficando meio doida de escutar rock num volume tão alto por tantas horas no dia.

Quando é anunciado um show único deles, no ginásio da Escola Superior de Educação Física, toda a cidade acorre às bilheterias. No dia do show, além das 12 mil pessoas com ingresso na mão, há umas 5 mil tentando desesperadamente entrar. Cambistas enriquecem, vendem a peso de ouro tudo o que têm, e ainda sobra muita gente do lado de fora.

Não tenho porte suficiente pra ficar no gargarejo. Vou para as arquibancadas, onde vejo o melhor show de rock nacional da minha vida. Eles abrem com “Que País é Esse?”, com guitarras mais sujas e um riff diferente do que ficou imortalizado no disco seguinte. Desenrolam o repertório perfeito dos dois primeiros, deixando o público em transe e derrubado de tanto pular e gritar. No final (antes do bis), a pièce de résistance: “Tempo Perdido”, tocada num groove mais acelerado, incrivelmente bom. O ginásio inteiro está rendido.

Mas eis que o acaso atinge em cheio o destino: uma sandália havaiana é jogada da plateia e acerta Renato Russo perto do rosto. A prima donna do rock brasileiro devolve-a à plateia, diz apenas “tchau, Belém”, e foge do palco junto com o restante da banda. Como sempre acontecia, uma van com o motor ligado os esperava na saída dos camarins, e dessa forma a maior noite de rock da história da cidade termina em clima de coito interrompido.

Muitos anos depois, numa rodinha de violão na praia, onde “Tempo Perdido” é peça obrigatória, uma amiga do meu irmão caçula conta pra mim a história daquele show. Ela não tem idade pra ter estado nele, mas fala com detalhes de como Renato anunciou “Índios”, “em homenagem à multidão de indiozinhos na plateia”, e isso enfureceu alguém do público, que jogou a sandália em represália.

Não tinham se passado nem 15 anos, e já havia uma lenda totalmente enraizada nas mentes dos jovens da cidade. Na época, a Legião sequer tocava “Índios” nos shows, pois achava a música “muito séria” para fazer as pessoas dançarem ao som dela. Digo à moça que as coisas não foram bem assim, mas ela teima tanto que eu quase a agarro pelos ombros, gritando: “Ei, eu estava lá! Ninguém me contou”.

Eu não devia, claro, ter reagido dessa forma. Eu e todo mundo fazemos exatamente isso o tempo todo: inventar fatos, pormenores, detalhes para colorir os acontecimentos da vida real. Nós sempre estamos inventando histórias, e nem precisamos publicá-las nas livrarias, porque a tradição oral já é suficiente para imortalizá-las na memória. Com os memes da internet, então, criar uma lenda hoje é até mais fácil do que estabelecer a verdade de um fato qualquer fato.

De vez em quando escrevo umas coisinhas de ficção, mas não há nenhuma novidade nisso. “Escrevemos” ficção desde sempre; quando, por exemplo, inventamos deliberadamente fatos que não aconteceram, pelo puro prazer de uma história divertida (mesmo que falsa). Amigos que poderiam desmentir as histórias, em vez disso, as repassam tal como contadas. Há uma pequena conspiração espontânea, onde cada um ajuda a fortalecer as lendas criadas pelo outro.

Estádio do Mangueirão, 1996.

O Remo estava tentando eliminar o Corinthians da Copa do Brasil, antes do gol contra de Castor, no último minuto, que empatou o placar. Eu, que nunca tinha ido ver o Remo no campo, foi arrastado pelo meu amigo remista fanático João Pedro, o popular JP.

O estádio está tão lotado que começa um empurra empurra seríssimo nas arquibancadas de cima. Eu tava vendo a hora de pessoas caírem da grade ou serem pisoteadas. JP tinha bebido demais, estava passando mal; e achei que a vida dele corria perigo.

Não consigo abrir caminho na passarela de acesso, então tomo uma decisão meio desesperada: pego meu amigo pela mão e abro caminho para cima, no meio da arquibancada lotada.

Eu estava incomodando muito as pessoas, pisando em mãos e pés. A cena era bizarra, com JP quase desmaiando atrás de mim. Ele, o garanhão que comia metade da população feminina da Universidade, tinha o cabelo comprido e usava blusas andróginas.

Alguns engraçadinhos começam a gritar pra mim: “Ei, viado! Leva embora a tua namorada!”

Não ligo pra eles, estava preocupado apenas em chegar ao pórtico de acesso. Mas penso numa historinha perfeita para a ocasião. Apenas penso, não aconteceu de verdade:

“Me viro pra eles e grito: melhor ser viado do que ser Paysandu! Os engraçadinhos se calam, e sou aplaudido pelas pessoas ao redor, que abrem caminho para nós dois passarmos”.

Conto a história como verdadeira a todo mundo. JP nunca a desmentiu. Hoje muita gente pensa que isso realmente aconteceu.

É por isso que precisamos obedecer com rigor à ordem de John Ford:

Se a lenda é melhor que o fato, publique-se a lenda.

O que tenho lido no papel

John Lennon e Yoko Ono

Firme no propósito de me manter relativamente offline, tenho compensado o descanso da net com a leitura de um amplo leque de revistas de papel. Achei uma boa idéia fazer uns resumos periódicos do que tenho lido em casa, até pra variar a pauta do blog, até o momento quase toda centrada em textos escritos há semanas. Vamos lá, então:

A Rolling Stone 52 publica a inédita última entrevista de John Lennon, concedida apenas três dias antes de ser assassinado. A entrevista tem pontos legais, mas Lennon é um tanto reclamão, e parece o tempo todo querer reivindicar o reconhecimento que acha que não recebeu da imprensa.

Mais interessante me pareceu um relato recente de Yoko sobre os últimos dias da vida dele. Ela tem perfeita consciência do quanto era “odiada”, e do quanto John a “protegeu” nessa empreitada arriscada de fazer um disco (Double Fantasy) dividido meio a meio. Ela diz que a pressão sobre eles tornava a vida deles um “inferno”, mas que o amor de John também a transformava num “céu”, um “céu que ficava no inferno”, mas que eles “adoravam”. Ela escreve muito bem, aliás.

A Bravo 161 publica um texto exageradamente laudatório de Arthur Dapieve a favor de Amy Winehouse. Por favor… precisava, para provar que Amy é “autêntica”, dizer que Lady Gaga “não tem nada a dizer”? Mania de crítico enfezado. E que passou por cima do imenso ponto de interrogação que se abre hoje sobre a carreira dela.

A julgar pelos relatos dos shows brasileiros, Amy parece estar sem nenhuma empolgação para seu repertório antigo. Mas, por outro lado, sua voz continua intacta, e ela mostrou vivacidade nas novas covers do repertório. Isso, e um disco novo produzido por Mark Ronson, mostram que o jogo está totalmente em aberto.

Na Piauí 52 o escritor irlandês Colm Tóibín faz um ensaio saboroso sobre o “milagre econômico” da Irlanda, que “foi da pobreza à prosperidade, e de volta à pobreza, em apenas 15 anos”.

As reformas liberais levaram à Irlanda grandes capitais externos, mas o povo investiu o dinheiro em consumo e imóveis, desprezando desenvolvimento tecnológico e industrial, e criou uma bolha que estourou junto a norte-americana, em 2008. O relato que ele faz do conservadorismo quase solidificado da sociedade irlandesa, e da incompetência de sua elite, é objetivo mas um tanto melancólico.

Melhor sorte temos nós, brasileiros. A Época Negócios 46 faz uma análise moderadamente otimista das perspectivas do governo Dilma, que, claro, vai pisar no calo de um monte de gente (sindicalistas, desenvolvimentistas, exportadores, partidos aliados), mas tem condições reais de perseguir crescimento sustentável de 5% ao ano e queda dos juros e da dívida.

A revista só demonstra um entusiasmo maior em relação à promessa solene da presidenta: erradicar a miséria no Brasil nesses quatro anos. Levar essas milhões de pessoas ao mercado de trabalho e de consumo já lhe reservará um lugar privilegiado em nossa história.