Poeira de estrelas

A imagem apareceu de supetão, sem aviso nenhum. Era assim. Estrepulias festeiras entre eu e meus amigos, cerveja incluída, numa alegre vila ao estilo europeu. Talvez seja próximo do final de ano.

Não sei quem são os amigos. Não sei se é uma história real ou um filme em que a minha imaginação “robô” me pôs dentro. Talvez seja 2001. Talvez antes. Não sei. Mas eu sei que estou dentro da cena.

A imagem (em movimento) é só isso, um fragmento tão pequeno quanto um papiro egípcio que fosse encontrado só hoje, em pedaço de poucos centímetros.

Mas é uma imagem real, forte, emotiva, e estava perdida na memória há anos. Voltou hoje de manhã, do nada. E faz parte, sim, do meu passado real ou fictício — porque até hoje eu sonho acordado e invento histórias na cabeça.

O melhor, meus caros: eu estava dormindo.

Não foi bem um sonho. Foi naquele ponto onde começa a terminar o sono profundo e vem em algum tempo a vigília. Na primeira noite de sono sob o efeito do novo e poderoso antidepressivo.

Na primeira noite, viram?

Até semana passada eu chorava de vez em quando, de manhã, sozinho no meu kitnet, derrubado de tristeza, pensando em dona Amparo e naquele cretino, o Cecílio. Hoje a lembrança perdida (e reencontrada) me fez chorar de alegria.

Que pena que voltei a ser ateu. Eu teria feito a prece de agradecimento mais bonita que minha cabeça conseguisse inventar.

Isso aconteceu hoje de manhã. Juro pelo amor da minha mãe.

Obrigado, poeira de estrelas.

MUITO OBRIGADO.

Desenrolando

Desenrola

Sem contemporizações, e prestem atenção que eu só vou dizer uma vez. O clã dos Pessoa, sinto admitir, é uma gangue de retardados. Reuniu-se todo, ontem, em plena hora do almoço, para ir ao cinema! Ver um filme brasileiro! Uma comédia romântica! Este que vos escreve, seus irmãos, primo, esposa e priminho, enfrentando o mormaço infernal de Santa Maria do Grão.

Fomos ver Desenrola, uma história juvenil que parecia uma ótima opção para toda a família. A Rolling Stone disse que era um bom e esquecível filme. Eu apenas queria continuar vivendo a minha vidinha offline, e fico feliz porque Aldo, meu irmão gêmeo, sempre aceita meus convites para sair ao cinema — e paga tudo. Lembra muito, nesse particular, a dona Amparo, que fazia exatamente a mesma coisa.

Minha ignorância sobre o estado atual do cinema brasileiro é total. O último filme que saí de casa pra ver, acho, foi “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”. Sei que há uma safra recente de bons filmes juvenis, mas não os vi. Não tenho parâmetros. Só sei dizer que “Desenrola” foi uma surpresa tremenda. Um filme muitíssimo bem escrito, dirigido, atuado, com um ritmo de comédia totalmente distinto dos clichês televisivos, e um sentimento genuíno de feelgood, que não se quebra nem nos poucos momentos em que a grife “Globo Filmes” nos empurra seu estilo de nos fritar o cérebro.

Há muito de profissionalismo meio norte-americano aí, é claro, mas eu consegui me desgrudar um pouco do meu cinismo profissional e torcer sinceramente pelos que fizeram o filme, torcer para que este caminhasse suavemente até o fim sem me decepcionar gravemente — ao final salvaram-se todos, e há um twist tão brilhante que meu queixo caiu alguns centímetros.

O alto grau de retardamento da família Pessoa (eu incluído), por outro lado, produziu emoções contraditórias. Um de meus irmãos estava genuinamente comovido com a história, e quando tocou uma música antiga do Richie, que eu sabia que ele amava de paixão, esperei até vê-lo chorar copiosamente (o que não houve). Meu primo Francisco ia em outro diapasão, se aproximando da temática erótica do enredo pela via de comentários extremamente vulgares. Eu me sentia melancólico e meio deprimido por isso. Éramos os únicos no cinema, e em certa hora ficávamos a debater as cenas! Até que algum santo se lembrava de mandar todo mundo calar a boca. E havia no timing de comédia de vários momentos uma semelhança tão grande com o humor palhaço que Cecílio praticava em nossas longas conversas, que meu peito em certa hora se sentiu muito oprimido.

Não sou uma pessoa feelgood o suficiente para me emocionar com uma história juvenil, mas a minha empatia permite me aproximar dos sentimentos daqueles rapazes e moças atuando, da garra deles, do talento deles. E havia uma determinada locação num bar de samba na Lapa que eu tinha certeza de ter visitado em 2009, e isso era como se eu estivesse numa sessão de hipnotismo me lembrando de uma vida passada, talvez aquelas bobagens de secretário do faraó tal ou oleiro numa vila medieval européia, que os charlatões inventam.

Rapaz ama moça que não o ama, pois gosta de outro. Não precisa de nada mais do que isso pra contar uma grande história.

Quando eu contar a minha história, vou finalmente desatar esse nó que me prende a garganta há mais de um ano. Eu até já rio pensando nesse momento. Vai ser lindo.

Tamo aí na atividade

Keep Walking

Esta é a primeira vez, desde abril de 2004, que posso dizer que “estou criando um novo blog”. O Velho do Farol nasceu no Blogspot, cresceu e apareceu. Fiz boas amizades virtuais, que perduram até hoje. O blog mudou de nome para “Mirante”, depois voltou ao nome antigo, foi para um domínio próprio, saiu do ar por falta de pagamento, e finalmente achou seu porto final no serviço gratuito do WordPress.

Eu estava tuitando freneticamente na época em que ele saiu do ar, então não me incomodei muito, mas depois percebi que, sim, escrevi uns textos bem legais, viu? E seria bom têlos de novo disponíveis.

A idéia de um blog sobre a “Vida Offline” surgiu há muito tempo, bem antes da mamãe ficar doente. Eu já estava de saco cheio de me pautar pelas discussões da blogolândia. Eu queria, metaforicamente, respirar ar puro, ir para a rua, ver o que estava acontecendo.

Não cedi à tentação de matar o Velho do Farol na época em que mamãe morreu. Seria um gesto por demais melodramático.

Esses dias, fiz uma pausa forçada por uma terrível crise depressiva (tenho transtorno bipolar há dez anos). Fiquei um mês numa clínica, dei meu computador para um primo, e estou, para todos os efeitos, offline. Uma situação que me empurra para falar da vida “real”.

Será está a tônica dos posts, então: a vida além da tela do computador.

Os que já acompanham o Velho do Farol pelo feed não precisarão fazer nada, já que o endereço continua o mesmo.

Sejam todos bem vindos.

The end is the beginning

(republicado do Velho do Farol)

O blog Velho do Farol está encerrando suas atividades hoje, mas continuarei escrevendo em meu novo blog, o Vida Offline.

(os posts antigos, obviamente, continuarão no ar)

Sem computador próprio e enfrentando péssimas conexões de internet fora de casa, fico afastado daquela atividade rotineira de passar o dia lendo e escrevendo na net.

É um bom momento para encerrar um ciclo e apostar mais em assuntos da vida “real”, dos quais possa falar mais intimamente e com mais conhecimento de causa, em vez de ficar no disse-me-disse dos assuntos da moda na blogolândia.

Peço aos amigos que têm o Velho do Farol nos favoritos e blogrolls que incluam este novo blog. O feed continua o mesmo, http://feeds.feedburner.com/mirante.

Quero agradecer a todos os blogueiros e comentadores que têm me inspirado e com quem tenho trocado idéias nos últimos seis anos e meio.

Muito obrigado.