Publique-se a lenda

Belém, 1986.

A Legião Urbana era a maior banda de rock do Brasil. Seu segundo disco enfileirava hits nas rádios: “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica”, “Quase Sem Querer”, “Índios”… eu, adolescente sem grana, aguardava ansiosamente o final do mês, quando receberia o dinheiro de umas aulas particulares e poderia finalmente comprar o disco. Realizado o desejo, o disco tocava tanto na vitrola, e sempre no volume máximo (como mandava a etiqueta da capa), que mamãe estava ficando meio doida de escutar rock num volume tão alto por tantas horas no dia.

Quando é anunciado um show único deles, no ginásio da Escola Superior de Educação Física, toda a cidade acorre às bilheterias. No dia do show, além das 12 mil pessoas com ingresso na mão, há umas 5 mil tentando desesperadamente entrar. Cambistas enriquecem, vendem a peso de ouro tudo o que têm, e ainda sobra muita gente do lado de fora.

Não tenho porte suficiente pra ficar no gargarejo. Vou para as arquibancadas, onde vejo o melhor show de rock nacional da minha vida. Eles abrem com “Que País é Esse?”, com guitarras mais sujas e um riff diferente do que ficou imortalizado no disco seguinte. Desenrolam o repertório perfeito dos dois primeiros, deixando o público em transe e derrubado de tanto pular e gritar. No final (antes do bis), a pièce de résistance: “Tempo Perdido”, tocada num groove mais acelerado, incrivelmente bom. O ginásio inteiro está rendido.

Mas eis que o acaso atinge em cheio o destino: uma sandália havaiana é jogada da plateia e acerta Renato Russo perto do rosto. A prima donna do rock brasileiro devolve-a à plateia, diz apenas “tchau, Belém”, e foge do palco junto com o restante da banda. Como sempre acontecia, uma van com o motor ligado os esperava na saída dos camarins, e dessa forma a maior noite de rock da história da cidade termina em clima de coito interrompido.

Muitos anos depois, numa rodinha de violão na praia, onde “Tempo Perdido” é peça obrigatória, uma amiga do meu irmão caçula conta pra mim a história daquele show. Ela não tem idade pra ter estado nele, mas fala com detalhes de como Renato anunciou “Índios”, “em homenagem à multidão de indiozinhos na plateia”, e isso enfureceu alguém do público, que jogou a sandália em represália.

Não tinham se passado nem 15 anos, e já havia uma lenda totalmente enraizada nas mentes dos jovens da cidade. Na época, a Legião sequer tocava “Índios” nos shows, pois achava a música “muito séria” para fazer as pessoas dançarem ao som dela. Digo à moça que as coisas não foram bem assim, mas ela teima tanto que eu quase a agarro pelos ombros, gritando: “Ei, eu estava lá! Ninguém me contou”.

Eu não devia, claro, ter reagido dessa forma. Eu e todo mundo fazemos exatamente isso o tempo todo: inventar fatos, pormenores, detalhes para colorir os acontecimentos da vida real. Nós sempre estamos inventando histórias, e nem precisamos publicá-las nas livrarias, porque a tradição oral já é suficiente para imortalizá-las na memória. Com os memes da internet, então, criar uma lenda hoje é até mais fácil do que estabelecer a verdade de um fato qualquer fato.

De vez em quando escrevo umas coisinhas de ficção, mas não há nenhuma novidade nisso. “Escrevemos” ficção desde sempre; quando, por exemplo, inventamos deliberadamente fatos que não aconteceram, pelo puro prazer de uma história divertida (mesmo que falsa). Amigos que poderiam desmentir as histórias, em vez disso, as repassam tal como contadas. Há uma pequena conspiração espontânea, onde cada um ajuda a fortalecer as lendas criadas pelo outro.

Estádio do Mangueirão, 1996.

O Remo estava tentando eliminar o Corinthians da Copa do Brasil, antes do gol contra de Castor, no último minuto, que empatou o placar. Eu, que nunca tinha ido ver o Remo no campo, foi arrastado pelo meu amigo remista fanático João Pedro, o popular JP.

O estádio está tão lotado que começa um empurra empurra seríssimo nas arquibancadas de cima. Eu tava vendo a hora de pessoas caírem da grade ou serem pisoteadas. JP tinha bebido demais, estava passando mal; e achei que a vida dele corria perigo.

Não consigo abrir caminho na passarela de acesso, então tomo uma decisão meio desesperada: pego meu amigo pela mão e abro caminho para cima, no meio da arquibancada lotada.

Eu estava incomodando muito as pessoas, pisando em mãos e pés. A cena era bizarra, com JP quase desmaiando atrás de mim. Ele, o garanhão que comia metade da população feminina da Universidade, tinha o cabelo comprido e usava blusas andróginas.

Alguns engraçadinhos começam a gritar pra mim: “Ei, viado! Leva embora a tua namorada!”

Não ligo pra eles, estava preocupado apenas em chegar ao pórtico de acesso. Mas penso numa historinha perfeita para a ocasião. Apenas penso, não aconteceu de verdade:

“Me viro pra eles e grito: melhor ser viado do que ser Paysandu! Os engraçadinhos se calam, e sou aplaudido pelas pessoas ao redor, que abrem caminho para nós dois passarmos”.

Conto a história como verdadeira a todo mundo. JP nunca a desmentiu. Hoje muita gente pensa que isso realmente aconteceu.

É por isso que precisamos obedecer com rigor à ordem de John Ford:

Se a lenda é melhor que o fato, publique-se a lenda.

Poeira de estrelas

A imagem apareceu de supetão, sem aviso nenhum. Era assim. Estrepulias festeiras entre eu e meus amigos, cerveja incluída, numa alegre vila ao estilo europeu. Talvez seja próximo do final de ano.

Não sei quem são os amigos. Não sei se é uma história real ou um filme em que a minha imaginação “robô” me pôs dentro. Talvez seja 2001. Talvez antes. Não sei. Mas eu sei que estou dentro da cena.

A imagem (em movimento) é só isso, um fragmento tão pequeno quanto um papiro egípcio que fosse encontrado só hoje, em pedaço de poucos centímetros.

Mas é uma imagem real, forte, emotiva, e estava perdida na memória há anos. Voltou hoje de manhã, do nada. E faz parte, sim, do meu passado real ou fictício — porque até hoje eu sonho acordado e invento histórias na cabeça.

O melhor, meus caros: eu estava dormindo.

Não foi bem um sonho. Foi naquele ponto onde começa a terminar o sono profundo e vem em algum tempo a vigília. Na primeira noite de sono sob o efeito do novo e poderoso antidepressivo.

Na primeira noite, viram?

Até semana passada eu chorava de vez em quando, de manhã, sozinho no meu kitnet, derrubado de tristeza, pensando em dona Amparo e naquele cretino, o Cecílio. Hoje a lembrança perdida (e reencontrada) me fez chorar de alegria.

Que pena que voltei a ser ateu. Eu teria feito a prece de agradecimento mais bonita que minha cabeça conseguisse inventar.

Isso aconteceu hoje de manhã. Juro pelo amor da minha mãe.

Obrigado, poeira de estrelas.

MUITO OBRIGADO.

Money, money, money

O dinheiro queimava no meu bolso. Muito dinheiro. Vários maços de notas de 100. Era tudo verdade. O dinheiro era meu. Houvera, sim, um comprador para o apartamento. O imóvel que representava a poupança da vida inteira da mamãe. E eu, herdeiro legítimo, tinha uma vontade enorme de gastá-lo inteiro.

O extrato de seis dígitos parecia uma sentença de morte. Não. Eu não quero viver administrando isso.

Totalmente inconsequente. Diagnosticado como borderline.

Já tinha tido uma época de semi-rico. Me dei ao direito de amar inconsequentemente os meus amigos. Paguei-lhes festins de sashimi nos melhores restaurantes. Ia às praias dos balneários de táxi. Centenas de reais em corridas.

A vida pode ser bem veloz, às vezes. E eu não entendo aqueles ricaços que, com tão mais dinheiro do que eu, levam vidas burguesas idiotas.

Mas na época eu já estava cansado dos mesmos e velhos amigos, hahaha. Fui procurar novos; jogava pérolas aos porcos com o mesmo espírito com que Diógenes empunhava uma lanterna.

Nesse ínterim a droga entrou com força. E eu estava lendo a Bíblia. E lembrei da barganha de Abraão com Jeová: 10 justos para salvar milhares de pecadores. Um justo pra mim bastava, e acabei sabendo que esse justo existia. Estava atravessando o umbral da casa de Vítor naquele exato momento.

Seu nome era Cecílio, e era um anjo falhado. Toda a inteligência e sensibilidade do mundo, mas perdido na droga muito mais do que eu.

Ninguém dormiu na casa de Vítor naquela noite. Este porque ficou fazendo sexo tântrico com sua mulher, e eu e Cecílio porque ficamos, no outro quarto, bebendo, fumando e conversando até raiar o dia.

Mas eu não vou contar aqui a história toda. Vou só dar um fast forward para um episódio em que um porco específico se engasga com a pérola a ele atirada, e quase morre.

Eu e Cecílio estávamos na porta da suíte do motel, despachando a puta com a qual ele tentou (e conseguiu) estragar a noite.

Eu não tinha cash, então pedi ao taxista que voltasse às seis da manhã, quando eu poderia sacar e pagar.

Às seis eu estava cansadíssimo e no meio de uma briga horrível com Cecílio. Saio no táxi, fingindo estar grogue de sono. Saco todo o limite diário. Entrego, “dormindo”, o dinheiro todo e mais o cartão magnético ao taxista.

Voltamos ao motel. Chegando lá, sou “acordado” pelo rapaz, que me entrega apenas o cartão. Espero alguns segundos. Eu queria muito que a minha tese sobre a honestidade humana estivesse errada.

— Tudo certo, né, amigo? — finjo.

— Tudo, patrão.

Espero mais alguns segundos e falo, com a voz menos sonolenta e mais firme que consigo:

— Me dê meus oitocentos reais, por favor.

A luz fenece em seu rosto. Trêmulo, me devolve o dinheiro. Queria que eu pagasse as corridas, o que obviamente não fiz. Seguem-se ameaças mútuas de chamar a polícia, que resultam apenas em que cada um siga para o seu lado.

Entro chorando na suíte e vou direto para a piscina. Cecílio, que via um pornô com Mônica Mattos, pára e vai me ver. Me abraça.

Conto a história toda. Ao final, digo:

— Estou gastando o dinheiro da mamãe, mas não a verdadeira herança que ela deixou pra mim: a honestidade e a coragem.

Cecílio me beija, e eu paro aos poucos de chorar.

Uma estátua à beira da piscina sorri para mim.