Sem a música, a vida seria um erro

A frase é de Nietzsche (aforismo 33 do Crepúsculo dos Ídolos). Eu tava refletindo sobre como um amor exagerado pela música me persegue há muito tempo, e na sua trajetória.

Quando eu era criança, nos anos 70, o Brasil estava vivendo talvez a sua era de ouro musical. As gravadoras chamavam os melhores artistas e davam-lhes liberdade para criar, e suas criações conseguiam grande sucesso de público.

Hoje é difícil acreditar que um disco difícil e reflexivo de Belchior (“Alucinação”) tenha vendido 500 mil cópias, mas sim, era esse o star system da música brasileira: Caetano Veloso, Elis Regina, Gilberto Gil, Chico Buarque, Rita Lee, Gal Costa, Tim Maia, Roberto Carlos, Maria Bethânia. Os melhores, fazendo meus melhores discos.

A seleção acima não é trivial. Eram os artistas que a mamãe gostava, e tinha discos, e ouvia o tempo todo. Eu cresci os ouvindo. Além das sambistas, Beth Carvalho, Alcione, Clara Nunes. Alguns eu tive que descobrir muito depois, como Jorge Ben, pelo singelo fato de que não estavam na discoteca dela.

Há poucos anos atrás, quando virei DJ de bar, eu colocava os rocks que as pessoas gostavam, mas quando os frequentadores começaram a pedir música brasileira, eu não tive muita dificuldade de fazer uma enorme playlist. Foi só relembrar os discos da mamãe.

Não havia nessa época um gosto autônomo, meu. Com certeza tive alguns discos meus, mas não lembro mais quais eram. Lembro só de um, uma coletânea dos Rolling Stones que tinha uma música que até hoje eu amo muito: “As Tears Go By”.

Então “As Tears Go By” talvez seja a primeira música “minha” mesmo. E o primeiro disco que eu e o André compramos de forma consciente foi “Voo de Coração”, do Ritchie, que tinha o sucesso “Menina Veneno” mas também outras músicas ótimas.

O Ritchie veio junto de uma grande onda: o rock nacional. Foi muito excitante. Lembro muito bem de ver no Fantástico a estreia do videoclipe de “Você Não Soube Me Amar”, da Blitz, que pode ser considerado o marco inaugural.

Na verdade foram duas ondas: a primeira, mais ingênua e lúdica, com Blitz, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Barão Vermelho. E a segunda, por volta de 1985, com as bandas mais “sérias”, RPM, Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude.

O estouro do rock brasileiro mudou pra sempre o mercado discográfico nacional. Ao mesmo tempo, estouraram nas rádios duas grandes bandas estrangeiras: The Cure e The Smiths. Então todos fomos capturados pelo rock tanto em inglês como em português.

Contei aqui sobre meu amor pela Legião Urbana. E no antigo blog sobre como o amor pela música unia nossa turma de amigos, numa época em que, bem, você tinha que ter o disco pra ouvir a música:

Nessa época de vinil e falta de grana, toda vez que alguém comprava um disco novo da Stiletto era motivo de festa. Os bolachões eram “propriedade coletiva”, e o que mais acontecia era a gente ir na casa de um amigo se achando no direito de exigir que disco tocar. “Toca aquele”.

Em tempos de YouTube e Spotify, é difícil imaginar o quanto a falta de grana nos impedia o acesso à música.

Eu comprava sempre a revista Bizz, que me deixava com uma enorme vontade de ouvir um monte de artistas, mas tinha que escolher cuidadosamente o que comprar, porque só havia dinheiro para poucos discos.

Lembro muito bem uma vez que eu visitei um colega de faculdade abonado, e no quarto dele tinha centenas de vinis, muita coisa que eu só ouvia falar e queria muito ouvir, mas não podia. Naquele dia eu me senti muito mal, me senti pobre e limitado.

Depois, quando eu fiquei melhor de grana, coincidiu de eu ir morar só num apartamento pequeno e comprei uma aparelho de som minúsculo e elegante que… só tocava CD. Chamei meus amigos pra uma festa na casa da mamãe e no final pedi que cada um deles escolhesse 5 vinis e levasse pra casa.

Fiquei só com os únicos CDs que eu tinha: “Nevermind” do Nirvana e “Blood Sugar Sex Magik” dos Red Hot Chili Peppers. Mas era a época da farra do dólar do Fernando Henrique e as lojas viviam cheias de lindos CDs importados. Comprei um monte.

Claro que a internet mudou tudo.

Já havia arquivos MP3, eu já tinha gravador de CD pra copiar os dos amigos, já dava pra baixar algumas músicas na net (a primeira foi “Everlong” dos Foo Fighters)… mas ainda não tinha o Napster.

O Napster foi um conceito completamente novo. Compartilhar seus próprios arquivos, criando uma grande fonoteca mundial, era algo que ninguém ainda tinha pensado.

Foi muito emocionante a primeira vez que eu abri o Napster. Eu fiz uma busca pelas bandas mais difíceis, aquelas que eu não encontrava em lugar nenhum, e tinha um monte de músicas de todas elas! Pensei: “agora abriu a porteira, e não fecha mais”. E eu estava certo.

Desapeguei completamente dos discos físicos. Hoje eu não tenho um sequer. Mas eu tinha uma enorme coleção de arquivos MP3, e é um fato da modernidade amar um disco que eu nunca toquei fisicamente.

Nunca tive o menor problema com a pirataria. Mas achava, ainda em 1999, que deveria haver um jeito de pagar um preço justo pra ter a música que a gente queria. Sim, o que hoje é o Spotify, eu via como um sonho quase impossível.

A música me deixa num estado alterado. Nunca tive walkman na infância e na juventude, então, já adulto, cheio de MP3 e com celulares com fone de ouvido, descobri tardiamente um novo mundo. A vida com música parecia um videoclipe constante, e eu me sentia melhor, mais forte, capaz de abraçar o mundo com as pernas.

Muito da minha auto estima de hoje se deve aos meus momentos de reflexão ouvindo música na rua. A música me chamava atenção para o fato de que há beleza em tudo, e às vezes a gente não repara.

Quando uma banda que eu amo lança uma música nova e ela é linda e me emociona, eu choro. Quando eu vou procurar a banda tocando a música ao vivo e eu percebo que não é truque de estúdio, que a banda se doa completamente no palco, eu choro. Quando a plateia do show responde com a mesma emoção que eu sinto, eu choro também.

Já passei muitas noites bêbadas com meu amigo JP, vendo vídeos musicais de todas as procedências, e nos emocionando com eles. Mas eu sequer preciso de álcool pra me sentir assim. Eu sinto essas coisas totalmente sóbrio.

Quando eu disse pra JP que eu chorava todos os dias vendo vídeos de shows no YouTube, completamente sóbrio, ele respondeu: “Marquinho, tu é doido”.

Talvez seja uma forma de loucura, mas eu respeito muito minhas lágrimas, e não sei ser de outro jeito.

Pra ser feliz em toda parte

Eu achava que ia perder o show do Violeta de Outono, desde sempre minha banda brasileira preferida. Tive uma insônia terrível e fui dormir depois de meio dia. Por um milagre acordei no susto às 20 horas, e dava tempo de ir. Fui andando, porque o show era no Hangar, que era perto da minha antiga casa.

Fui cantarolando “Em Toda Parte” que é a minha música preferida deles. “Quando a noite espelha a terra em transe, um som invade a face do planeta”. Eles não tocavam mais essa música ao vivo, e metade do show em geral era de covers de bandas dos anos 60 e 70. Eu soube disso porque fui no site Setlist.fm olhar o repertório dos últimos meses.

Era o Festival Se Rasgum de 2014, e acho que dispensa apresentações pra quem é ligado em música né? Um dos festivais mais criativos do país, reconhecido no centro sul como um celeiro de novas ideias.

Tenho que tirar o chapéu para os moços da organização, com os quais eu já briguei em porta de boate, hehehe. Eu os achava uns metidos, que se achavam demais para o que faziam. Mas, ao contrário de mim (que organizei algumas festas nos anos 90, mas ficou nisso), eles eram operosos e foram construindo aos poucos a marca das festas Dançum Se Rasgum, até chegar ao festival, que este ano (2020) está estreando em São Paulo.

Nesse mesmo dia do Violeta teve o Jaloo, que na época era apenas um DJ de quem todo mundo tava falando, e que fez um show sozinho tocando teclado e com um casal de dançarinos. Fiquei particularmente tocado quando ele anunciou que naquela semana a grande banda eletrônica The Knife estava se separando, e tocou uma cover tecnobrega (em português) de “Pass This On”, que ficou linda.

A noite fechou com a ótima banda de garagem americana Bass Drum of Death, e um show épico de Arnaldo Antunes, que revisitou toda a sua carreira e inclusive seus clássicos dos Titãs.

Mas claro que eu e todos (todos) os meus melhores amigos estávamos lá pra ver o Violeta né.

Eu na muvuca

Quando eu cheguei ainda tinha pouca gente, e quando os músicos foram ligar os instrumentos tinha tipo um fã clube de gente entusiasmada que ficou conversando com o Fábio Golfetti, líder da banda e único remanescente da formação original. Eu só fiquei olhando. Claro que quando começou o show eu fui para o gargarejo.

Em resumo, fizeram um show curto (10 músicas), absolutamente perfeito. Ao contrário do esperado, quase todo o repertório veio dos dois primeiros discos, aqueles que todos nós ouvimos na época, os dois igualmente maravilhosos.

Eu tava sóbrio e achava que, ao contrário de sempre, não iria chorar. Qual o quê! Na segunda música (“Dia Eterno”), no solo eu senti o meu coração ser arpoado pelo som lindo, lindíssimo da guitarra do Fábio.

Eu nunca vou entender quem se contenta com a versão do disco e não enfrenta o perrengue de ir pra um show lotado. Não existe nada como ver as músicas que você ama reinterpretadas ao vivo, com a gana dos músicos mostrando o que sabem para os fãs.

Não acreditei quando começou “Sombras Flutuantes”, outra música que eles quase não tocam. Eles fizeram um show pra nós que São Paulo quase não via mais. E no meio da música o Fábio pôs a guitarra no chão e tocou com slide e efeitos de pedal, e todos nós esticamos o pescoço pra ver ele ajoelhado como um monge louvando a musa.

Terminaram com as duas músicas mais icônicas de cada um dos dois primeiros disco, “Outono” e “Vênus”. Quando Fábio se despedia, o grito de “mais um” foi tão forte que ele olhou para o rapaz da produção, e foi autorizado a dar o bis (coisa que não existe em festival).

Qual ele escolheu pra encerrar? “Em Toda Parte”. E pela segunda vez as lágrimas vieram. Eu me lembrei de quando comprei o vinil e ouvi pela primeira vez. Eu tinha certeza que uma banda que conseguiu fazer dois discos lindos desses iria durar pra sempre.

Existem dias mais ou menos, existem dias bons, e existem dias perfeitos. Naquele dia eu olhava no rosto dos amigos, e todos estavam inebriados de felicidade.

Sangue como vinho

O Balthazar é uma das bandas mais lindas do mundo, e eles me lembram do André.

Eu levei os arquivos MP3 do Balthazar pra São Paulo e morei algumas semanas com meu saudoso irmão gêmeo, no apartamento dele perto da Praça da República.

Ele sempre gostou de folk eletroacústico, e amou Balthazar.

A gente levava no celular e ouvia no cinema antes do filme começar, cada um com um lado do fone.

Essa temporada em São Paulo foi uma das épocas mais felizes da minha vida.

Esse vídeo são 13 minutos de fúria, amor e poesia.

“Blood Like Wine” é a música mais bonita do Balthazar, e essa apresentação específica é uma das mais perfeitas e emocionantes apresentações de show de banda em todo o YouTube.

O Balthazar já fez dúzias de versões dessa música, mas essa é a mais longa, a mais épica, a mais “tela grande” e de comunicação direta com o público, que tava lá em Bruxelas delirando com a entrega total da banda.

Sim, é uma banda que se entrega. Embora pareçam estar num ensaio de casa, brincando e falando com o público, carregam uma emoção imensa nos instrumentos e nas vozes. Lindo demais o trabalho de vozes deles.

O André amou Balthazar e várias outras bandas que eu levei pra ele. Apesar de a gente ter gostos musicais diferentes, havia muito diálogo e troca.

Ele ficou fascinado que eu guardava em MP3 e capas em PDF todas as coletâneas em CD que eu fiz desde 1997.

Ele era lindo, solene, mas triste, e jogava fora as coisas que escrevia, etc.

O Pequeno Príncipe

Uma pessoa como o André ter pisado a face da Terra é algo que insere em mim, um ateu convicto, a dúvida de que talvez exista um Deus justo.

Todos nós que tivemos a oportunidade de conhecê-lo ganhamos uma dádiva rara, e se eu tiver que agradecer por isso, agradeço.

Hoje seria o nosso aniversário e eu fiquei sem comemorar vários anos porque achava que era assim que eu devia homenageá-lo.

Saudações, meu príncipe. Nunca será esquecido.

Sexo, drogas e calças quadriculadas

Diogo é um amigão meu de Icoaraci. Ele chegou comigo um dia e falou: “conheci um rapaz que acho que é gay e é bem o teu estilo”.

Numa farra lá eu vi como era o moço. Lindo. Gordinho e lindo de morrer. Vestia aquelas calças moles de tecido quadriculado que era exatamente o estilo que eu usava na época.

Joãozinho era o nome dele. Naquele dia emendamos pra minha casa, eu, ele e o Diogo. Eu morava só numa casa enorme. Joãozinho inventa de comprar duas caixas de Benflogin pra nós três. Tomamos e ficamos nos divertindo com os delírios visuais do remédio.

Benflogin não te deixa chapado, apenas a visão fica “lenta” e tudo parece estar dançando na tua frente. Uma hora fui na copa, e tava com uma luz forte, toda a prataria da mamãe arrumada, e o brilho começou a dançar, como naquela cena de A Bela e a Fera em que a prataria começa a dançar e cantar.

Naquela mesma noite derrubei o Joãozinho na minha cama, né. Ele era uma máquina de sexo e foi maravilhoso. Diogo dormiu no quarto ao lado e eu espero que não tenha escutado o barulho enorme que a gente tava fazendo.

Começamos um casinho (escondido, porque ele era casado com uma advogada). Ele era muito jovem, tinha muita grana e usava muita droga, né. Eu, tamanho homem, pela primeira vez cheirei benzina, que é uma droga bobinha de adolescente skatista.

As coisas tavam indo rápido mas sem compromisso nem cobrança, até que uma vez estava um outro amigo meu em casa, o Carlos, que é modelo fotográfico, e o Joãozinho, que eu já sabia que era uma puta rampeira, derruba ele num dos quartos, enquanto eu tava em casa. Fiquei muito puto mas não falei nada.

Os dois foram pra Cotijuba, que é uma ilha próxima de Icoaraci. A esposa do João (com quem eu já tinha falado por telefone) me ligou perguntando se eu sabia onde ele estava. Eu, imbecil, deixei escapar o nome da ilha.

Percebi que ela tava louca de ciúme e ia lá procurar por ele. Aí eu fiz a segunda bobagem: peguei o ônibus pra Icoaraci pra avisar o Joãozinho…

Por que eu fiz isso? Não tenho a menor ideia. Só sei que eu gostava dele e talvez estivesse com sede de aventuras.

A travessia de barco pra Cotijuba era, na época, muito barata, uns 3 reais, mas era tarde da noite. O barqueiro só ia levar se eu arrumasse 20 reais. E eu fui furtado no ônibus, acredita? Só sobraram uns 15 reais. Se não tivesse havido o furto, eu teria pago os 20 e partido no mesmo instante.

Fiquei esperando alguém pra completar. Eis que chega no trapiche uma moça branca bem vestida. Vou lá explicar que ela teria que arrumar 10 reais pra completar a viagem.

Ela me olha com atenção e pergunta:

Você é o Marcus?

Percebi na hora: era a Patrícia, esposa do João. Ela nunca me encontrou mas reconheceu a minha voz. Respondo:

— Não, eu sou o André, irmão dele.

Ela sabia que eu tinha um irmão gêmeo, ela batia papo comigo pelo telefone porque o João dizia que eu era o melhor amigo dele e tal. Entre outras coisas, falei do André, que era meu gêmeo idêntico.

Eu devo ter sido o melhor ator do mundo, porque ela acreditou que eu era ele.

E ela adorou o “André”, achou ele super simpático e ficou do lado dele (do meu lado) desabafando todo o ódio que ela tava sentindo do marido — e de mim também.

— Desculpa, eu sei que é teu irmão, mas o Marcus é um viado safado que seduziu o meu marido!

Me senti num sonho, num filme. Ela tava falando mal de mim pra mim mesmo, achando que eu era outra pessoa.

Fiquei tão fascinado pela situação (e por ela ser uma imbecil que acreditou na minha mentira) que fui dando corda:

— Não precisa se desculpar não, eu sei que o Marcus é irresponsável, não é a primeira vez que ele apronta dessa. Ele devia deixar os rapazes heteros em paz, não devia desencaminhar eles…

(é claro que o João não era hetero porra nenhuma, era uma vadia que fazia um teatro pra sugar o dinheiro da mulher. O dinheiro que ele esbanjava comigo era dela e não dele)

Ela falou mal longamente de mim, e eu fazendo um esforço enorme de não gargalhar (até porque, se isso acontecesse, era capaz de ela me jogar no fundo do rio).

Chegamos na ilha, dei um vaivém nela e fui atrás do João e do Carlos. Eu teria no máximo meia hora ou uma hora de dianteira.

Os achei facilmente na praia do Vai Quem Quer. João ficou possesso, achando que eu tava fazendo uma cena de ciúme… aí eu me revoltei:

— Cala a boca, idiota, eu vim te avisar! Tua mulher vai cortar teus culhões se tu não te esconder agora mesmo!

Ele não acreditou, e ficou um tempão nesse estica encolhe, com o Carlos assistindo perplexo o chilique dele.

Até que acontece o óbvio: Patrícia chega e vê a cena. Claro que ela percebeu na hora que eu não era o André, e os gritos que essa mulher dava eu acho que acordaram a ilha inteira.

Eu me afastei pra ver de camarote a presepada (e pra não pegar safanão também).

O mais engraçado de tudo foi que… a Patrícia era uma mulher linda, e o Carlos, que é bi, disse pro João que ia conversar com ela, mas na verdade tava flertando com ela — e ela deixando.

Visualizem a comédia pastelão. Certa hora Carlos e Patrícia entram num dos quartos de pousada e João fica desesperado batendo na porta, louco de frustração e ciúmes.

Fui embora porque tenho um medo atávico e genuíno de gente louca, né.

Dias depois, Patrícia me liga se desculpando e contando uma história de que o João fez macumba pra “amarrar” ela. E que roubou uma quantidade grande de dinheiro que ela guardava em casa.

Percebi que aquilo poderia ser minha primeira novela, quando eu me dispusesse a escrever ficção, mas foda-se, agora que tem o blog, resumi o máximo possível pra contar pra vocês.

Ela processou ele na Vara da Infância e da Adolescência (sim, porque, pra completar, ele, que parecia ter uns 22 anos, tinha só 17). E me arrolou de testemunha.

No último capítulo dessa ópera bufa, tive que ir no juiz falar sobre os fatos.

Antes do roubo a Patrícia tinha comprado em Belo Horizonte uns 5 mil reais de roupa pro Joãozinho ficar vendendo e ter uma renda. Ela não queria sustentar ele pra sempre, né.

O juiz perguntou sobre essa questão da roupa e eu respondi:

— Meritíssimo, ela gostava muito dele, ela trouxe 5 mil reais de roupas lindas pra dar de presente pra ele.

Todos os advogados e servidores na audiência caíram na gargalhada, porque eu tava derrubando toda a acusação dela.

No final o juiz me perguntou se eu tive um caso com o João. Respondi:

— Que é isso, doutor? Eu sou hetero.

A rosa branca na calçada

Naquele dia eu tinha ido ver “Uma Mulher contra Hitler” no Olympia, com uma amiga querida. Eu sabia que era um bom filme, mas não estava preparado para a força avassaladora dele.

Houve uma grande batalha moral e filosófica no século XX, e ela foi vencida metaforicamente por Sophie Scholl naquela salinha em que enfrentou o inspetor Held, a ponto de deixá-lo literalmente sem ter o que dizer.

Na época ninguém sabia dessa pequena vitória. Hoje sabemos.

Eu saí depois com minha amiga e ficamos andando nas ruas conversando sobre liberdade, que era o único assunto pertinente depois de ver esse filme.

Quando eu fui pra casa e soltei os gatos, Noel se aproveitou de novo e pulou para o jardim do vizinho.

Ele sempre faz isso. Virou rotina, quase todos os dias. O jardim do vizinho é praticamente o Éden dos gatos, tem uma cerca viva que eu acho que eles ficariam lá todos os dias da sua vida.

Mas não tem como ele voltar, então ele sempre fica na grade fechada miando pra eu colocar ele pra dentro de novo. Eu abro e xingo ele de tudo o que é nome, mas não adianta. Claro que ele entende, mas não liga.

Pensei no que Sophie faria nessa situação.

Por volta de uma da madrugada eu abri o portão da vila e deixei ele sair. Saí com ele, fechei o portão a chave e me sentei na calçada. Ele ficou andando pra tudo que é lado, confiante que eu estava lá. Apesar de tudo, ele confia em mim.

O que fazer por alguém que a gente ama, a não ser dar-lhe o que ele quer?

Noel, assim como todos os gatos, assim como todos os seres humanos, assim como Sophie Scholl, anseia por liberdade. Mais do que isso. Anseia pela liberdade da aventura, pelo desconhecido, pelas alturas, por tudo o que está longe e é um desafio para alcançar.

Quem sou eu pra dizer: “fique aqui, em segurança, fique comigo pra toda a vida, e seja menos você”?

Não tenho como dizer isso pra essa criatura que eu amo tanto.

O nome da gangue pacifista de Sophie era Rosa Branca. Metaforicamente, havia uma rosa branca saindo do meio das pedras de lioz da Cidade Velha.

Mas Noel ficou cansado, quis entrar, e as minhas divagações filosóficas foram abreviadas pelas necessidades comezinhas da vida.

Como sempre são. Como sempre serão.

A fé do atacante diante do gol

Quando eu era criança e via futebol na TV de tubo, só uma parte do jogo aparecia, e de repente havia uma “surpresa” e uma jogada genial chegava ao gol.

Na primeira vez que eu vi no campo, percebi que nada disso era verdade. Não havia surpresas. A jogada genial já tava sendo enxergada por todos desde o início, desde o primeiro toque. O gol saía porque o atacante acreditava que aquele caminho óbvio, que tava sendo visto por todos, era bom o suficiente, e a força da fé dele era maior do que a descrença dos adversários.

Totalmente idiota a associação, eu sei, mas pensei nisso quando acordei de susto hoje e fui ouvir música.

Eu fiquei de DJ ontem no barzinho dos amigos aqui na esquina de casa, consegui alguns sorrisos das meninas, dancei colado com a minha melhor amiga, e no final tava morrendo de sono. Cheguei em casa depois da meia noite, soltei os gatos pra brincarem na vila de casa (tenho 4 deles) e… apaguei, dormi até 5 da manhã.

Eu parei de beber mas tenho sido tomado pela embriaguez do amor próprio, de perceber que o que eu faço é bom e relevante, e que eu tenho que continuar a fazer até perder os sentidos.

Eu acordei no susto, a casa toda aberta, e foi como se a noite não tivesse sido interrompida. Liguei o fone, coloquei no shuffle geral (aquele que toca qualquer música das 3 mil do celular) e… começa a tocar uma música ridiculamente linda que eu não lembrava de ter ouvido alguma vez na vida.

Era uma música acústica onde a genialidade da melodia, como a jogada do atacante no estádio, a gente já percebia no primeiro compasso, a gente sabia onde ia dar, e fica pensando: por que eu mesmo não fiz essa música? E a resposta era a mesma do futebol: porque, ao contrário de mim, o autor da música acreditou que aquele caminho era bom e que a música ficaria bonita e faria alguém feliz.

Ouvi a música, nem um pouco surpreso com as lágrimas que começavam a jorrar, e os gatos miavam porque queriam comida.

Eu fui dar ração, fechar a porta, tentando perplexo entender o que tinha acontecido, como se eu tivesse ouvido a música ainda no sonho, e não logo depois de acordar.

E, como os sonhadores, anotei no papel o panorama sem lógica que aparecia na minha mente, e venho aqui correndo contar pra vocês.

Ninguém perde amigos por dar trela aos seus delírios.

Vestido e armado com as tuas armas

(republicado) Jorge de Anicii, o Cavaleiro de Cristo, descansa permanentemente em lugar de honra na minha mesa de trabalho, com sua pose mais gloriosa.

Dona Amparo, sabendo-me devoto do santo, e tendo conhecimento de que o devoto não deve comprar a imagem, mas ganhá-la de presente, trouxe-me-a de uma viagem a Aparecida. Tenho uma outra, maior, presente de um amigo, mas ainda não pude buscá-la.

Hoje, 23 de abril, é o dia de São Jorge. O santo guerreiro teria morrido há exatamente 1.704 anos, mas… a verdade histórica é o que menos importa, baby. Não se faça de bobo acreditando na infinidade de lendas sobre ele.

Pense no que ele representa no coração das pessoas; isso sim é importante. O espírito indômito. O inconformismo contra as injustiças. A coragem de enfrentar os poderosos. A força, a elegância, a graça.

Prestar esse louvor não faz de ninguém carola ou cúmplice de uma igreja corrupta. Jorge foi entronizado pelo povo e não por uma malta de bispos. Caso único na história.

Padroeiro de tantas cidades e países, é amado na Catalunha, e uma experiência inesquecível foi estar num 23 de abril desses na festa de Sant Jordi (seu nome catalão) em Barcelona.

Como homem sábio que era, Jordi patrocina também a cultura, e por ter salvo sua amada do dragão, abençoa o amor romântico. Na Catalunha seu dia é também o dia do livro e o dia dos namorados, e todos se dão livros e rosas de presente.

As vias públicas da bela capital ficam abarrotadas de banquinhas vendendo os presentes, que em tempos menos afeitos à igualdade sexual eram mais específicos: as moças ganhavam as rosas, e os rapazes os livros. Como já se sabe que elas não são imunes à inteligência e nem eles ao amor, ganham-nos hoje indistintamente.

Naquele 23 de abril, dei dois livros e ganhei um, que guardo até hoje (La ciudad de los prodigios, de Eduardo Mendonza); dei uma rosa e ganhei duas. Fui às missas e aos folguedos, e tenho me sentido, sempre, vestido e armado com as armas de Jorge. Vendo facas e lanças se quebrarem antes de chegar a mim, e sabendo que ninguém nem em pensamento pode me fazer mal.

Jorge da Capadócia
(Jorge Ben)

Jorge sentou praça na cavalaria
Eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham mãos e não me toquem
Para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal

Armas de fogo, meu corpo não alcançarão
Espadas, facas e lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
Cordas e correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge

Jorge é de Capadócia, viva Jorge
Jorge é de Capadócia, salve Jorge

Perseverança ganhou do sórdido fingimento
E disso tudo nasceu o amor

(a letra da música é uma adaptação da oração do santo. Este texto foi publicado originalmente em 2007)