Desenrolando

Desenrola

Sem contemporizações, e prestem atenção que eu só vou dizer uma vez. O clã dos Pessoa, sinto admitir, é uma gangue de retardados. Reuniu-se todo, ontem, em plena hora do almoço, para ir ao cinema! Ver um filme brasileiro! Uma comédia romântica! Este que vos escreve, seus irmãos, primo, esposa e priminho, enfrentando o mormaço infernal de Santa Maria do Grão.

Fomos ver Desenrola, uma história juvenil que parecia uma ótima opção para toda a família. A Rolling Stone disse que era um bom e esquecível filme. Eu apenas queria continuar vivendo a minha vidinha offline, e fico feliz porque Aldo, meu irmão gêmeo, sempre aceita meus convites para sair ao cinema — e paga tudo. Lembra muito, nesse particular, a dona Amparo, que fazia exatamente a mesma coisa.

Minha ignorância sobre o estado atual do cinema brasileiro é total. O último filme que saí de casa pra ver, acho, foi “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”. Sei que há uma safra recente de bons filmes juvenis, mas não os vi. Não tenho parâmetros. Só sei dizer que “Desenrola” foi uma surpresa tremenda. Um filme muitíssimo bem escrito, dirigido, atuado, com um ritmo de comédia totalmente distinto dos clichês televisivos, e um sentimento genuíno de feelgood, que não se quebra nem nos poucos momentos em que a grife “Globo Filmes” nos empurra seu estilo de nos fritar o cérebro.

Há muito de profissionalismo meio norte-americano aí, é claro, mas eu consegui me desgrudar um pouco do meu cinismo profissional e torcer sinceramente pelos que fizeram o filme, torcer para que este caminhasse suavemente até o fim sem me decepcionar gravemente — ao final salvaram-se todos, e há um twist tão brilhante que meu queixo caiu alguns centímetros.

O alto grau de retardamento da família Pessoa (eu incluído), por outro lado, produziu emoções contraditórias. Um de meus irmãos estava genuinamente comovido com a história, e quando tocou uma música antiga do Richie, que eu sabia que ele amava de paixão, esperei até vê-lo chorar copiosamente (o que não houve). Meu primo Francisco ia em outro diapasão, se aproximando da temática erótica do enredo pela via de comentários extremamente vulgares. Eu me sentia melancólico e meio deprimido por isso. Éramos os únicos no cinema, e em certa hora ficávamos a debater as cenas! Até que algum santo se lembrava de mandar todo mundo calar a boca. E havia no timing de comédia de vários momentos uma semelhança tão grande com o humor palhaço que Cecílio praticava em nossas longas conversas, que meu peito em certa hora se sentiu muito oprimido.

Não sou uma pessoa feelgood o suficiente para me emocionar com uma história juvenil, mas a minha empatia permite me aproximar dos sentimentos daqueles rapazes e moças atuando, da garra deles, do talento deles. E havia uma determinada locação num bar de samba na Lapa que eu tinha certeza de ter visitado em 2009, e isso era como se eu estivesse numa sessão de hipnotismo me lembrando de uma vida passada, talvez aquelas bobagens de secretário do faraó tal ou oleiro numa vila medieval européia, que os charlatões inventam.

Rapaz ama moça que não o ama, pois gosta de outro. Não precisa de nada mais do que isso pra contar uma grande história.

Quando eu contar a minha história, vou finalmente desatar esse nó que me prende a garganta há mais de um ano. Eu até já rio pensando nesse momento. Vai ser lindo.

Harvey Dent e Duas Caras são a mesma pessoa

Harvey Dent

As breaking news atropelaram esse post, escrito há vários dias. A escolha de Anne Hathaway para o papel de Selina Kyle (aka Mulher Gato) no terceiro bat-filme foi seguida por um suspiro planetário. Não se sabe se pela surpresa estonteante ou por outros “atributos” dessa fantástica atriz. Também não sabemos se Selina ajudará Batman a ir para o fundo do poço ou tentará tirá-lo de lá. Tantas perguntas, tantos meses de filmagens…

Mas eu ia dizer uma coisa totalmente diferente. Que revi há pouco o segundo filme, e ficou mais uma vez clara a importância da presença de Harvey Dent (Aaron Eckhart) para manter a história num tom adulto quase incompatível com o modelo atual de blockbuster hollywoodiano.

A abordagem que Christopher Nolan deu para esse personagem clássico da mitologia morcegóvica surpreendeu pela quebra da dicotomia “Dr. Jekkil / Mr. Hyde” apresentada em outras épocas. Harvey Dent não é o médico e Duas Caras não é o louco. Ambos são a mesma pessoa.

No primeiro episódio da graphic novel homônima de Frank Miller, uma dupla de renomados cientistas “curou” Harvey Dent. Um cirurgião plástico restaurou a metade destruída de seu rosto, e um psiquiatra garantiu ter contido a dupla personalidade do ex-promotor.

A pedido da imprensa, Harvey mostra a moeda que tem no bolso, e ela está sem nenhuma marca em ambos os lados.

É claro que não ia dar certo.

Batman encontra mais tarde a moeda riscada nas duas faces, e quando captura Duas Caras (que a essa altura já tinha voltado ao crime), este diz que a dualidade deixou de existir, e que bastava olhar para dentro de si mesmo e ver como ele era de verdade.

Frank Miller desenha, então, Dent com os dois lados do rosto desfigurados. Numa fantástica sequência de quadros, Batman também olha para dentro de si mesmo e vê o morcego que o “possuiu” na infância, o qual lhe obriga a viver a vida quase suicida que leva.

Nolan  não chega a ser tão icônico em seu filme, mas também mostra um Duas Caras que rechaça a dualidade loucura / lucidez. No filme, Harvey Dent já tem o apelido de Duas Caras, já joga a moeda para tomar uma decisão, e já é um tanto violento, bem antes de ter o rosto esquerdo destruído na explosão de gasolina.

O fato mais importante para a mudança do personagem não foi a sua mutilação, mas o assassinato de Rachel (Maggie Gyllenhaal). O “sistema” em que Dent tanto acreditava mostrou-se falho. Mas Duas Caras não deixa de acreditar na Justiça, apenas quer fazê-la do seu jeito. Um jeito muito peculiar, é verdade.

Todos sabemos como isso terminou. E Batman que se cuide. Ele também anda meio alterado, precisando de uns ansiolíticos. Lucius Fox se mandou antes que aquele Bruce Wayne salvacionista e autoritário da graphic novel de Miller desse as caras. Mas na terceira aventura da trilogia, literalmente tudo pode acontecer.

O que tenho lido no papel

John Lennon e Yoko Ono

Firme no propósito de me manter relativamente offline, tenho compensado o descanso da net com a leitura de um amplo leque de revistas de papel. Achei uma boa idéia fazer uns resumos periódicos do que tenho lido em casa, até pra variar a pauta do blog, até o momento quase toda centrada em textos escritos há semanas. Vamos lá, então:

A Rolling Stone 52 publica a inédita última entrevista de John Lennon, concedida apenas três dias antes de ser assassinado. A entrevista tem pontos legais, mas Lennon é um tanto reclamão, e parece o tempo todo querer reivindicar o reconhecimento que acha que não recebeu da imprensa.

Mais interessante me pareceu um relato recente de Yoko sobre os últimos dias da vida dele. Ela tem perfeita consciência do quanto era “odiada”, e do quanto John a “protegeu” nessa empreitada arriscada de fazer um disco (Double Fantasy) dividido meio a meio. Ela diz que a pressão sobre eles tornava a vida deles um “inferno”, mas que o amor de John também a transformava num “céu”, um “céu que ficava no inferno”, mas que eles “adoravam”. Ela escreve muito bem, aliás.

A Bravo 161 publica um texto exageradamente laudatório de Arthur Dapieve a favor de Amy Winehouse. Por favor… precisava, para provar que Amy é “autêntica”, dizer que Lady Gaga “não tem nada a dizer”? Mania de crítico enfezado. E que passou por cima do imenso ponto de interrogação que se abre hoje sobre a carreira dela.

A julgar pelos relatos dos shows brasileiros, Amy parece estar sem nenhuma empolgação para seu repertório antigo. Mas, por outro lado, sua voz continua intacta, e ela mostrou vivacidade nas novas covers do repertório. Isso, e um disco novo produzido por Mark Ronson, mostram que o jogo está totalmente em aberto.

Na Piauí 52 o escritor irlandês Colm Tóibín faz um ensaio saboroso sobre o “milagre econômico” da Irlanda, que “foi da pobreza à prosperidade, e de volta à pobreza, em apenas 15 anos”.

As reformas liberais levaram à Irlanda grandes capitais externos, mas o povo investiu o dinheiro em consumo e imóveis, desprezando desenvolvimento tecnológico e industrial, e criou uma bolha que estourou junto a norte-americana, em 2008. O relato que ele faz do conservadorismo quase solidificado da sociedade irlandesa, e da incompetência de sua elite, é objetivo mas um tanto melancólico.

Melhor sorte temos nós, brasileiros. A Época Negócios 46 faz uma análise moderadamente otimista das perspectivas do governo Dilma, que, claro, vai pisar no calo de um monte de gente (sindicalistas, desenvolvimentistas, exportadores, partidos aliados), mas tem condições reais de perseguir crescimento sustentável de 5% ao ano e queda dos juros e da dívida.

A revista só demonstra um entusiasmo maior em relação à promessa solene da presidenta: erradicar a miséria no Brasil nesses quatro anos. Levar essas milhões de pessoas ao mercado de trabalho e de consumo já lhe reservará um lugar privilegiado em nossa história.

Eu escolho Malba Tahan

São quatro da manhã e eu vou à janela do banheiro procurar a Estrela Dalva.

Ela nunca falha, é claro. Está sempre lá, um pouco acima da skyline cinzenta da cidade, dizendo que o dia está pra raiar.

Tem sido assim todos os dias. Obrigado a dormir cedo, tenho acordado religiosamente às quatro da manhã. É uma chateação esperar até as seis, quando poderei circular fora do quarto da internação.

Ultimamente tenho mais uma companheira astral: a lua crescente tem descido todo dia para juntar-se à Estrela Dalva.

Ontem se aproximaram tanto que formaram o símbolo do islamismo. E aí eu lembrei de Malba Tahan.

Ele era brasileiro, mas eu, criança, não sabia, e o imaginava como um sábio cheique árabe de barbas grisalhas.

Malba Tahan me fez amar o islamismo, ao mostrar uma Arábia iluminada pela razão e pelos valores da honestidade e da generosidade.

Parecia uma meritocracia da virtude. Os reis e ministros eram os mais sábios de todos, sempre transmitindo a seus interlocutores um elevado conteúdo moral.

Alguns não sabem, mas Tahan escreveu, em menor número, histórias judias e cristãs. Usando as tradições de cada povo, trazia a mesma mensagem de amor e compaixão.

Temos agora aqueles que advogam guerras e dizem estarmos em um choque de civilizações. E temos esse brasileiro que mostrou três religiões irmãs nos enviando a mesmíssima mensagem de amor.

Nesse debate a minha decisão é óbvia. Eu escolho Malba Tahan.

Não é uma mansarda

Minha casa é belo kitnet numa vila familiar, mas eu não deixo meu romantismo meio cômico e a chamo de “mansarda”.

Não há nada de mansarda, mas a solidão meio forçada a que me submeto, por questões de saúde, torna todas as palavras do escriba mais solenes e ridículas.

Eu tenho espaço, luz, um banheiro decente, um ventilador que não uso porque a temperatura é sempre amena, uma mesa para escrever a mão, uma geladeira e uma televisão. Poderia ser um manual para criar um desses neuróticos que querem viver uma vida “normal”.

É por isso que uso o termo “mansarda”. Mathieu Delarue não se sentiria menos infeliz só por estar num lugar higiênico, cheio de comida e com gente amigável nas casas ao redor. Provavelmente isso o deixasse pior do que já é.

Mas um pedaço daquela minha vida antiga — que, registre-se, era menos saudável, mas muito mais divertida — se imiscuiu na forma de um aparelhinho de MP3 totalmente alienígena, uma espécie de anti-iPod, onde chegar aonde você quer é sempre o caminho mais difícil.

Eu estava na casa do meu irmão, usando o computador dele, como um bom cidadão offline, e percebi que era inviável baixar naquele momento algumas das coletâneas que eu tenho no 4shared. Com 1 GB de espaço, nem pensar em amplas condições de discos.

Mas, sim, existia um disco. O disco novo do trio sueco Peter, Bjorn and John, que, como já comentei no Twitter, não é tão brilhante quanto os anteriores, mas é feito com tesão, alegria, e o deslocamento cognitivo habitual de todo músico absolutamente moderno.

O resultado é que eu estou aqui entre pilhas de livros, roupas para separar para a lavadeira, compras para arrumar na despesa, a TV ligada sem som, e o principal, na verdade o que me fez buscar o MP3: meus jovens vizinhos estão dando uma pequena festinha; a música não é boa, mas não está num nível insuportável. Não é pagode, é só um dance um pouco datado.

E eu queria dizer alguma coisa a eles, metaforicamente, dizendo essas coisas a vocês. De repente, isso já não é uma mansarda, e Mathieu que se foda.

Antigamente eu acreditava piamente em Max Martins — pra quem não sabe, um grande poeta paraense, que dizia que uma casa não é lugar de ficar, mas de ter de onde se ir.

Mas não existem ensinamentos que valham para todos. E a casa pode ser um lugar pra ter onde ir (o verso também é dele).

E quer saber? O MP3 tem interface em Klingon e eu não leio o nome das músicas, mas já reavaliei: o disco novo de P.B.J., “Gimme Some”, é bom pra caramba!

Conversando com João

No princípio só havia um homem falando.

No princípio já havia um homem falando.

E aquilo que saía de sua boca, ele mesmo batizou de “palavra” (sendo que “batismo” ainda não era uma palavra).

Mas ele não lembra de quando falou pela primeira vez a palavra “palavra”, então, em termos práticos:

“No princípio já existia a Palavra”

Mas, de tanto falar, e nomear, e batizar, aquele homem chegou a coisas para as quais não conseguia dar um nome, e às vezes sequer conseguia se aproximar da idéia daquilo que, sim, existia.

Muitos séculos depois, deu um nome para essa coisa sem nome: o “indizível”.

E vários outros séculos adiante, finalmente encontrou um nome que julgou adequado pra essa coisa que não tinha nome até então: “Deus”.

O homem percebeu que havia um caminho a ser percorrido entre palavras e idéias, então concluiu que:

“A Palavra se dirigia a Deus”

…como um trem desgovernado, só porque o homem sabia que não se combinavam idéias sem repetições. Não é que fosse um clichê. Ele criou o que viria a ser um clichê, o que é diferente.

Esse homem sábio sabia de gregos e troianos, cristãos e muçulmanos, crentes e ateus. Era um pacifista. Queria que todos se entendessem. Sabemos hoje que sua proposta não foi muito bem aceita. Mas era um belo pensar. Pensar no quanto a ambiguidade pacifica.

“A Palavra era Deus”

Uma frase ambígua o suficiente para que ninguém tente ensinar algo de forma definitiva a partir dela. Porque cada um sabe o que pensar, o que interpretar. O homem é livre.

Livre para acreditar, livre para duvidar, livre para querer acreditar sem conseguir.

Mas tem uma coisa em relação à qual o homem não é livre. Não me interpretem errado. Não-livre é aquele que não se liberta de algo. Aquele homem primordial é uma ficção. O homem verdadeiro, ao falar, não se liberta de procurar um ouvinte.

Talvez seja isso que nos tenha feito sobreviver à nossa autodestrutividade.

(os três versos destacados são o início do Evangelho de João, na tradução moderna da Bíblia do Peregrino. O primeiro poema de João é uma espécie de refundação do mito da criação)

Inception e a felicidade

Leonardo DiCaprio e Marion Cotillard

Demorei a falar do filme por vários motivos, mas acho importante comentar um assunto específico que não foi debatido por outros blogueiros.

O Tiago ficou um pouco decepcionado, porque não viu grandes sacadas visuais ou surpresas para os olhos, como todos esperávamos.

Os irmãos Wachowski (em “Matrix” e “Speed Racer”) fizeram isso: deram-nos imagens que nunca tinham sido vistas antes. O filme de Christopher Nolan é discreto nesse aspecto, embora a cena dos prédios em ruínas no limbo, em frente à praia, seja uma das mais impactantes que eu já vi.

Os triunfos de Nolan estão no roteiro, e assim tem sido em várias ocasiões. Quem viu o trailer do “Cavaleiro das Trevas” poderia pensar numa mera combinação de explosões e cenas de ação, se não houvesse um roteiro brilhante e complexo.

Em Inception o que interessa é a história — que se bifurca em duas: a inserção de uma idéia na mente do magnata Robert Fischer (Cillian Murphy) e os traumas do comandante da operação, Cobb (Leonardo DiCaprio).

Uma coisa que eu não vi ninguém notar, e para mim ficou óbvia, é a analogia entre os sonhos construídos artificialmente e os paraísos artificiais das drogas.

O subsolo da casa de Yusuf (Dileep Rao), com vários “clientes” (ou pacientes) ligados permanentemente a máquinas de sonhar, tem uma grande similaridade, inclusive visual, com as casas de ópio do Oriente.

Filosofando um pouco, poderíamos dizer que o uso radical das drogas alucinógenas é a tentativa artificial de encontrar a felicidade suprema. Um drogado a esse nível não quer frustrações, tédio, reveses, nada que não seja o êxtase permanente. Não quer se conformar, não quer aceitar as limitações da vida.

O que Cobb e Mal (Marion Cotillard) tiveram nos muitos anos no limbo foi isso: uma vida sem contradições, sem envelhecimento, sem precisar do suor do rosto pra ganhar o pão, sem qualquer limite para a a vivência de seus desejos e emoções. Uma vida que todos gostariam de ter, mas ninguém tem.

Não é preciso acreditar que o suicídio de Mal seja o resultado de Cobb ter-lhe inoculado a idéia de que o limbo era a verdadeira realidade. Bastaria mesmo viver aqueles anos lá para rejeitar qualquer realidade menos perfeita que lhe fosse apresentada.

Ser feliz é o que todo mundo quer, e em “Transpotting” um dos personagens diz que um pico de heroína dá uma sensação de felicidade mil vezes melhor do que a melhor trepada que você deu na vida.

Em ambos os casos, a busca desmesurada pela felicidade pode cobrar um preço alto.

Money, money, money

O dinheiro queimava no meu bolso. Muito dinheiro. Vários maços de notas de 100. Era tudo verdade. O dinheiro era meu. Houvera, sim, um comprador para o apartamento. O imóvel que representava a poupança da vida inteira da mamãe. E eu, herdeiro legítimo, tinha uma vontade enorme de gastá-lo inteiro.

O extrato de seis dígitos parecia uma sentença de morte. Não. Eu não quero viver administrando isso.

Totalmente inconsequente. Diagnosticado como borderline.

Já tinha tido uma época de semi-rico. Me dei ao direito de amar inconsequentemente os meus amigos. Paguei-lhes festins de sashimi nos melhores restaurantes. Ia às praias dos balneários de táxi. Centenas de reais em corridas.

A vida pode ser bem veloz, às vezes. E eu não entendo aqueles ricaços que, com tão mais dinheiro do que eu, levam vidas burguesas idiotas.

Mas na época eu já estava cansado dos mesmos e velhos amigos, hahaha. Fui procurar novos; jogava pérolas aos porcos com o mesmo espírito com que Diógenes empunhava uma lanterna.

Nesse ínterim a droga entrou com força. E eu estava lendo a Bíblia. E lembrei da barganha de Abraão com Jeová: 10 justos para salvar milhares de pecadores. Um justo pra mim bastava, e acabei sabendo que esse justo existia. Estava atravessando o umbral da casa de Vítor naquele exato momento.

Seu nome era Cecílio, e era um anjo falhado. Toda a inteligência e sensibilidade do mundo, mas perdido na droga muito mais do que eu.

Ninguém dormiu na casa de Vítor naquela noite. Este porque ficou fazendo sexo tântrico com sua mulher, e eu e Cecílio porque ficamos, no outro quarto, bebendo, fumando e conversando até raiar o dia.

Mas eu não vou contar aqui a história toda. Vou só dar um fast forward para um episódio em que um porco específico se engasga com a pérola a ele atirada, e quase morre.

Eu e Cecílio estávamos na porta da suíte do motel, despachando a puta com a qual ele tentou (e conseguiu) estragar a noite.

Eu não tinha cash, então pedi ao taxista que voltasse às seis da manhã, quando eu poderia sacar e pagar.

Às seis eu estava cansadíssimo e no meio de uma briga horrível com Cecílio. Saio no táxi, fingindo estar grogue de sono. Saco todo o limite diário. Entrego, “dormindo”, o dinheiro todo e mais o cartão magnético ao taxista.

Voltamos ao motel. Chegando lá, sou “acordado” pelo rapaz, que me entrega apenas o cartão. Espero alguns segundos. Eu queria muito que a minha tese sobre a honestidade humana estivesse errada.

— Tudo certo, né, amigo? — finjo.

— Tudo, patrão.

Espero mais alguns segundos e falo, com a voz menos sonolenta e mais firme que consigo:

— Me dê meus oitocentos reais, por favor.

A luz fenece em seu rosto. Trêmulo, me devolve o dinheiro. Queria que eu pagasse as corridas, o que obviamente não fiz. Seguem-se ameaças mútuas de chamar a polícia, que resultam apenas em que cada um siga para o seu lado.

Entro chorando na suíte e vou direto para a piscina. Cecílio, que via um pornô com Mônica Mattos, pára e vai me ver. Me abraça.

Conto a história toda. Ao final, digo:

— Estou gastando o dinheiro da mamãe, mas não a verdadeira herança que ela deixou pra mim: a honestidade e a coragem.

Cecílio me beija, e eu paro aos poucos de chorar.

Uma estátua à beira da piscina sorri para mim.

Pileque de Kronenbier

Numa clínica psiquiátrica são os carneirinhos que contam a gente, e não o contrário. O tempo parece sólido.

Por isso, um mero exercício de alongamento, daqueles com instrutor, tem o valor de um passeio à Riviera.

O bom é que começamos deitados em colchonetes, no pátio, cujas sombras nos protegem do sol e permitem apreciar a inacreditável manhã em que cúmulos velozes pincelam o céu mais azul que já existiu. Eu penso que maluquices meu amigo Paulo Ponte Souza faria se pudesse pincelar esses cúmulos com a mesma fúria do vento daquela manhã.

Depois dos alongamentos o instrutor me franqueia seu case de CDs, para colocar música nos 15 minutos que restam. O estilo do case é “MPB chata”, mas há uma coletânea do Caetano, e consigo ouvir em sequência: Odara, Cinema Transcedental e O Quereres.

Na clínica é raro ouvir música boa, então me sinto novamente enlevado, dançando discretamente em pleno “banho de sol” dos pacientes.

Essas epifanias inesperadas são como ficar de pileque de Kronenbier (uma cerveja sem álcool). Mais uma prova de que a música é a droga mais forte, mais viciante e com menos efeitos colaterais que existe.

Insights me emocionam e me fazem chorar, mas eu, como bipolar, preciso estar atento e forte. Quando qualquer iluminaçãozinha vira uma enxurrada de felicidade, os momentos “normais” parecem tristes e inúteis.

E aí, meus caros, é partir para a mistura cultural: o caminho do meio de Sidarta, a lucidez cética de Coelet, e, sim, os remedinhos milagrosos da modernidade farmacêutica, tão discretos que parecem placebo.

A nota destoante de um post tão alegrinho vem via Caetano, naquela mesma “O Quereres”, onde diz que:

O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual, faz-me querer-te bem e querer-te mal.

Uma síntese de porque talvez estejamos todos, a longo prazo, fudidos e mal pagos.

Tamo aí na atividade

Keep Walking

Esta é a primeira vez, desde abril de 2004, que posso dizer que “estou criando um novo blog”. O Velho do Farol nasceu no Blogspot, cresceu e apareceu. Fiz boas amizades virtuais, que perduram até hoje. O blog mudou de nome para “Mirante”, depois voltou ao nome antigo, foi para um domínio próprio, saiu do ar por falta de pagamento, e finalmente achou seu porto final no serviço gratuito do WordPress.

Eu estava tuitando freneticamente na época em que ele saiu do ar, então não me incomodei muito, mas depois percebi que, sim, escrevi uns textos bem legais, viu? E seria bom têlos de novo disponíveis.

A idéia de um blog sobre a “Vida Offline” surgiu há muito tempo, bem antes da mamãe ficar doente. Eu já estava de saco cheio de me pautar pelas discussões da blogolândia. Eu queria, metaforicamente, respirar ar puro, ir para a rua, ver o que estava acontecendo.

Não cedi à tentação de matar o Velho do Farol na época em que mamãe morreu. Seria um gesto por demais melodramático.

Esses dias, fiz uma pausa forçada por uma terrível crise depressiva (tenho transtorno bipolar há dez anos). Fiquei um mês numa clínica, dei meu computador para um primo, e estou, para todos os efeitos, offline. Uma situação que me empurra para falar da vida “real”.

Será está a tônica dos posts, então: a vida além da tela do computador.

Os que já acompanham o Velho do Farol pelo feed não precisarão fazer nada, já que o endereço continua o mesmo.

Sejam todos bem vindos.

The end is the beginning

(republicado do Velho do Farol)

O blog Velho do Farol está encerrando suas atividades hoje, mas continuarei escrevendo em meu novo blog, o Vida Offline.

(os posts antigos, obviamente, continuarão no ar)

Sem computador próprio e enfrentando péssimas conexões de internet fora de casa, fico afastado daquela atividade rotineira de passar o dia lendo e escrevendo na net.

É um bom momento para encerrar um ciclo e apostar mais em assuntos da vida “real”, dos quais possa falar mais intimamente e com mais conhecimento de causa, em vez de ficar no disse-me-disse dos assuntos da moda na blogolândia.

Peço aos amigos que têm o Velho do Farol nos favoritos e blogrolls que incluam este novo blog. O feed continua o mesmo, http://feeds.feedburner.com/mirante.

Quero agradecer a todos os blogueiros e comentadores que têm me inspirado e com quem tenho trocado idéias nos últimos seis anos e meio.

Muito obrigado.